terça-feira, abril 09, 2013

Penny Bailey e o jornalismo científico: “o ideal é sempre contar uma boa história”


Blog do The Guardian acompanhou o Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013 e perguntou aos principais jornalistas do setor como é trabalhar com ciência.

Sala com genomas no Wellcome Collection (Russ London/Wikimedia/Commons)

The Guardian: O que faz uma história sobre ciência ser interessante?

Penny Bailey: “Intensidade”, a história tem que mexer com você. E os sentimentos de intensidade surgem a partir de uma série de abordagens, tais como:
- Os aspectos humanos da história – com a exposição das principais características do (s) personagem (ns) e a sua jornada pessoal –, o lado científico e as pessoas cujas vidas serão afetadas pela ciência.
- Alguns elementos inerentes ao drama – como por exemplo, os obstáculos aparentemente intransponíveis, concorrência, tomada de decisões, problemas e soluções, e cronogramas.
- As surpreendentes artimanhas científicas.
- O ineditismo da história – se a história não é inédita, deve-se abordar o assunto de uma forma diferente, nova.

É preciso entender de ciência para se escrever um bom texto?

O importante é contar uma boa história. É óbvio que se você entende de ciência, ou dos temas relacionados com a área, sua discussão será mais consistente.

Como você começa os seus textos?

Eu costumo escrever todo o artigo primeiro para depois fazer o lead (embora eu já tenha idéia do que eu quero destacar). Porque a abertura é um ponto crítico para atrair o leitor – além disso, minhas melhores idéias raramente são aquelas que penso de imediato –, por isso, sempre utilizo abordagens diferentes antes de selecionar aquela que considero a mais atrativa e relevante para começar a história.

Como você faz para extrair as informações de um entrevistado?

Ter em mente o que eu pretendo escrever e o que devo questionar junto ao entrevistado ajuda bastante – assim como deixar claro as minhas intenções antes de começar a entrevista. É recomendável também sempre ter uma lista de perguntas. Alguns cientistas são naturalmente grandes contadores de histórias e, nesse caso, você tem só que ouvi-los, mas outros – que não deixam de ter boas histórias para contar – necessitam de um pouco mais de conversa e incentivo.

Você trabalha com analogias e metáforas nos seus textos?

Sim, para facilitar o entendimento da história ao explicar conceitos mais complexos.

Quanta informação fica fora dos textos?

Isso depende muito da pauta e do limite de caracteres. Geralmente, deixo de fora coisas que não comprometem o texto e que realmente não acrescentam algo novo a história, mesmo que sejam informações interessantes.

Como equilibrar o texto objetivo com a pegada de um contador de histórias? É possível?

Se estou avaliando uma situação complexa nas quais as respostas não são fáceis (ou que não sejam muito claras), tento manter a objetividade e equilibrar as diferentes opiniões e pontos de vista. Outra possibilidade, é trazer o furo na resposta final. Se tenho o meu ponto de vista da situação, foco nos elementos da história para apoiar essa visão.

Qual é o maior contratempo no ramo de quem escreve sobre ciência?

É muito fácil se envolver com os detalhes técnicos da ciência e desprezar os elementos que dão vida à história.

Penny Bailey é escritor do Wellcome Trust.

Da Série: O Segredo dos grandes jornalistas científicos
Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013
Uma parceria entre o The Guardian e o The Observer

Fonte: The Guardian

domingo, abril 07, 2013

Grandes Cientistas # Bons Matemáticos


E. O. Wilson revela um segredo: Descobertas surgem de idéias, não de números impressionantes

Professor emérito de Harvard, Edward O. Wilson (Jim Harisson/Wikimedia/Commons) 

Para alguns jovens que pensam em se tornar cientistas, a matemática é o grande pesadelo. Sem conhecimento matemático, como é que se pode fazer um trabalho científico de verdade? Bom, eu tenho um segredo profissional para revelar: alguns dos cientistas mais bens sucedidos do mundo atualmente são semi-analfabetos em matemática.

Durante décadas como professor de biologia em Harvard, vi com tristeza estudantes brilhantes desistirem da carreira científica temendo que não pudessem obter sucesso sem grandes habilidades matemáticas. Esse equívoco tem privado a ciência de enorme quantidade de talentos, muitos deles desperdiçados. Isso criou uma hemorragia criativa que precisa ser estancada.

Falo com autoridade sobre o assunto porque eu mesmo sou um caso extremo. Até o primeiro ano na Universidade do Alabama, eu não sabia nada sobre álgebra porque estudei durante anos nas escolas precárias de Southern. Só fui aprender a calcular aos 32 anos, quando me tornei professor de Harvard e depois que sentei, desconfortavelmente, em uma sala de aula com estudantes que tinham pouco mais que a metade da minha idade. Dois deles eram alunos no curso de biologia evolucionista da qual eu era o professor. Tive que engolir o meu orgulho e aprender a calcular.

Quando jovem, fui um estudante que mal se aproximava da nota C, e só consegui me tranqüilizar quando descobri que ter uma grande habilidade em matemática era a mesma coisa que ser fluente em línguas estrangeiras. Em línguas é assim: com um pouco mais de esforço e algumas sessões de conversação com estrangeiros, consegue-se falar bem. Mas tudo isso compromete o laboratório e os campos de pesquisa, e nos faz avançar em uma única direção.

Felizmente, o dom excepcional exigido pela matemática se restringe somente a algumas disciplinas, tais como a física, astrofísica e teoria da informação. Além disso, mais importante do que a ciência como um todo é a habilidade de criar conceitos, momento em que o pesquisador vislumbra intuitivamente imagens e modelos de pesquisa.

Às vezes, todo mundo viaja em idéias como um cientista. Bem organizadas, as fantasias são o fio condutor de todo o pensamento criativo. Newton sonhava, Darwin sonhava, você sonha. Nossos primeiros devaneios são sempre muito vagos. Aos poucos vão tomando forma, e crescem com maior consistência a medida que são esboçados em blocos de papel e que ganham vida como exemplos reais do objetivo da pesquisa.

Os primeiros cientistas raramente fizeram descobertas extraindo idéias da matemática pura. A imagem estereótipo de cientistas estudando linhas e mais linhas de equações no quadro negro servem para exemplificar apenas descobertas já realizadas. As verdadeiras “sacadas” surgem no campo das anotações, no meio do escritório abarrotado de papéis rabiscados, no corredor durante uma discussão com um amigo ou no almoço solitário. Os momentos de Eureca resultam de trabalho pesado. E foco.

Idéias científicas surgem com facilidade quando os envolvidos na pesquisa trabalham em prol do bem comum, em benefício de todos. De forma intuitiva, os pesquisadores organizam suas idéias para melhor extrair um fragmento real sobre tudo que existe. Quando algo novo é encontrado, é necessário aplicar um modelo de avaliação que sempre exige métodos estatísticos ou matemáticos para dar prosseguimento às análises. As dificuldades técnicas que surgem nessa fase são duras para quem realizou a descoberta, por outro lado, a matemática e a estatística podem ser vistas como grandes colaboradores.

Na década de 1970, desenvolvi junto com o teórico matemático George Oster os princípios de casta e de divisão de trabalho em sociedades de insetos. Forneci os detalhes a respeito do que havia sido descoberto na natureza e nos laboratórios, e ele utilizou seu kit de ferramentas, cheio de hipóteses e teorias, para capturar esses fenômenos. Sem as minhas informações, Oster poderia até desenvolver uma teoria geral, mas não teria como deduzir quais as variações seriam possíveis em relação aos fenômenos.

Durante anos, publiquei diversos estudos em co-autoria com estatísticos e matemáticos afim de oferecer mais credibilidade aos princípios adotados. Chamo a isso de o 1° Princípio de Wilson: é bem mais fácil para os cientistas adquirir a colaboração indispensável de estatísticos e matemáticos dos que os mesmos encontrar cientistas capazes de utilizar suas equações.

Esse impasse é um caso específico na biologia, onde fatores da vida real se transformam em fenômenos mal compreendidos ou que passam despercebidos, sem que sejam notados. Os anais teóricos da biologia estão entupidos de modelos matemáticos que podem ser satisfatoriamente ignorados ou, se testados, falhos. É bem provável que somente 10% de tudo isso tenha valor duradouro. Ou seja, salvam-se aqueles ligados diretamente com o conhecimento empregado na vida real.

Se o seu nível de competência matemática é pequeno, planeje aumentá-lo, entretanto, saiba que você pode fazer um trabalho científico marcante com o que você tem em mãos. Mas, pense duas vezes, ao se especializar em campos que trabalham com experimentos de estreita alternância e com análises quantitativas. Isso inclui a maioria dos químicos e físicos, bem como alguns especialistas em biologia molecular.

Newton inventou cálculos como forma de dar vazão a sua imaginação. Darwin não tinha quase habilidade alguma em matemática, mas, com a enorme quantidade de informações que acumulou, pode conceber sistemas que tempos depois seriam utilizados por matemáticos.

Aos aspirantes a cientista, o primeiro passo é encontrar um assunto que seja profundamente interessante e que se tornará seu principal foco. Ao fazê-lo, tenha em mente o 2° Princípio de Wilson: para todo cientista, existe uma disciplina cujo o nível de exigência em matemática não compromete o alcance da excelência.

sábado, abril 06, 2013

Geoff Brumfiel e o jornalismo científico: “Ouça opiniões contrárias”


Blog do The Guardian acompanhou o Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013 e perguntou aos principais jornalistas do setor como é trabalhar com ciência.

Apatosauro, Museu de História Natural de Nova Iorque (Wikimedia)

The Guardian: O que faz uma história sobre ciência ser interessante?

Geoff Brumfiel: Tem muita coisa em ciência que pode se transformar em boas histórias. Podemos escrever sobre uma nova pesquisa, bem como alertar a potencial ameaça presente em uma nova tecnologia. Ou simplesmente fazer com que as pessoas pensem o mundo de uma forma um pouco diferente.

É preciso entender de ciência para se escrever um bom texto?

Meu primeiro editor dizia que era muito mais importante saber escrever do que entender de ciência. Ele tinha razão, no entanto, o conhecimento científico ajuda bastante!

Como você começa os seus textos?

Cuidadosamente. Nas reportagens, em especial, você tem de acertar na primeira linha, se não anula o resto da matéria.

Como você faz para extrair as informações de um entrevistado?

Silêncio. Na tentativa de preencher uma desconfortável lacuna no diálogo, as pessoas acabam contando coisas interessantes.

Você trabalha com analogias e metáforas nos seus textos?

Com moderação, apenas nos momentos necessários.

Quanta informação fica fora dos textos?

Bastante, mas acredito que não sejam as mais importantes.

Como equilibrar o texto objetivo com a pegada de um contador de histórias? É possível?

Objetividade é tudo o que um escritor profissional precisa ter, sendo assim, você tem que encontrar os melhores caminhos nesse sentido. Parece que, com o passar dos anos, isso fica estranhamente mais fácil. Mas se você não quer ter problemas, a coisa mais correta a se fazer é ouvir opiniões contrárias, e respeitá-las. Ou então, apenas citá-las em seus textos.

Qual é a maior inverdade no ramo de quem escreve sobre ciência?

As pessoas pensam que quem escreve sobre ciência promove a ciência ou o pensamento científico. Isso não é verdade, o trabalho de qualquer repórter é informar as pessoas a respeito de tudo o que acontece ao nosso redor.

Geoff Brumfiel é jornalista de ciência da NPR e um dos fundadores da Nature.

Da Série: O Segredo dos grandes jornalistas científicos
Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013
Uma parceria entre o The Guardian e o The Observer

Fonte: The Guardian

sábado, março 23, 2013

Homem tenta vender imóvel e receber em Bitcoins


 Autor: Eric Larson

A exemplo de quase tudo hoje em dia, o mercado imobiliário está muito difícil. Mesmo assim, um homem resolveu incluir um viés técnico nessa questão: vender sua casa em moeda digital.

Vista do campus central da Universidade de Alberta (Glenlarson / Wikimedia)

Taylor More, de Alberta, no Canadá, colocou seus bangalôs de dois quartos à venda na internet. Ele está pedindo 405,000 dólares canadenses (cerca de 400,000 dólares americanos) no dinheiro ou, a quem possuir, cerca de 5,750 Bitcoins.

Bitcoin é um sistema de movimentação financeira digital descentralizada, e nos moldes peer-to-peer (P2P, direto, ponto-a-ponto), que vem ganhando aparência nos últimos anos. Trata-se essencialmente de moedas virtuais que podem ser enviadas diretamente pela internet. Ao contrário das transações financeiras oficiais, os Bitcoins não têm uma unidade central; as movimentações são realizadas sem intermediários.

Atualmente, segundo reportagem da CNET, a taxa de câmbio é de 65,05 dólares para cada Bitcoin. Apesar do anúncio, Taylor More diz que não está completamente seguro em receber apenas Bitcoins. No post, ele escreveu:

“Se você tem 450.000 dólares canadenses eu não posso fazer qualquer desconto, mas, dependendo de quantos Bitcoins você tiver para negociar na transação, no total ou parcial, o preço pode cair”.

Fonte: Mashable

domingo, março 17, 2013

Tudo em família


Autor: Claire Vaye Watkins*

Quem primeiro veio para o Vale da Morte foi meu pai, motivado pelo discurso de Charles Manson. Ele sempre fazia o que Charlie pedia, e dizia que isso significava ser uma “Família”. O deserto que meu pai conheceu foi o lugar dos buggies de areia e do Juízo Final, a terra acessível apenas por veículos com tração nas quatro rodas, onde nem mesmo Helter Skelter cruzaria o seu caminho. Ele ficou no Vale da Morte durante os assassinatos do caso Tate-LaBianca e depois fugiu. Foi aqui que um velho garimpeiro chamado Crockett perguntou-lhe, depois da matança, se ele realmente acreditava naquela besteira toda do Charlie. E foi aqui que o meu pai sentiu pela primeira vez a textura aveludada da argila dentro das suas unhas, a liberdade de puxar um pedaço opala ou turquesa da rocha com suas próprias mãos, o cheiro no ar de ervas do campo depois da chuva.

Charles Manson ao ser preso, em 1969 (Wikimedia/Commons)

Acredito que era nisso que ele pensava no dia em que se aproximou de Charlie no Spahn Ranch – depois dos assassinados mas antes do ataque – e perguntou se os acordos seriam cumpridos. Ou a noite, pouco depois de abrir a porta da choupana, meio sonâmbulo, e encontrar Charlie e Tex agachados no meio da escuridão e com facas entre os dentes. O deserto foi a sua salvação, o amor da sua vida. Por 15 anos, até o dia em que eu nasci. O que seria de nós se este lugar não tivesse salvado o meu pai?

Assisti um vídeo dele todo bronzeado na CNN usando uma camisa de abotoar até o pescoço com uma gravata de bolinhas. Vi que ele perdia tempo com um receptor defeituoso enquanto falava sobre os amigos e a “Família”, repetindo sem parar, como estivesse louco. Eles se consideravam anjos divinos, uma onda revolucionária que salvaria o mundo. Em outro vídeo, ele está apoiado em travesseiros e deitado na cama de onde não saiu até morrer de leucemia. Ele olha para dentro da câmera e diz: Aqui estou eu, minhas lindas. Quero que vocês saibam que as amo muito. E também quero que vocês saibam tudo o que eu fui.

Quer dizer que ele pensou que poderia ser questionado um dia? Quando ele morreu, eu tinha seis anos. Não tenho nenhuma lembrança que ele esperava que eu tivesse. Mas tenho CNN e Helter Skelter. Às vezes, eu vejo ele lá. Vejo novamente suas entrevistas, ouço sua voz grossa e trêmula em muitos lugares familiares. Ouço, mas acho que ele não gostaria que eu falasse sobre isso.

Na verdade, o que ele me deixou foi isso aqui: um lugar distante no meio do deserto, na altura da Highway 127, ao sul do Vale da Morte. Vemos isso aqui como turistas, apesar de que somos o oposto; afinal de contas esse é um lugar que nós conhecemos muito bem. Eu e minha irmã estamos com os pés no chão, ela movimenta os braços, eu mexo na terra. Aqui, neste solo perigoso cheio de: cabeças de bode, arbustos espinhosos e plástico. Escorpiões e cascavéis. Sim, é possível encontrá-los por todos os lados. Exatamente como era quando meu pai andava por aqui com a “Família” antes de existir a nossa família.

Certa vez me contaram que nossos cães rodearam uma cascavel enorme perto de casa. Meu pai pegou a cobra e cortou a cabeça dela com uma pá, e fez questão de nos mostrar. Minha irmã estava aprendendo a andar e ficou curiosa, tal como a filha dela é hoje, e pegou a cobra morta nas mãos. Ouvi essa história tantas vezes, tive que jurar que se tratava de uma lembrança. Então, minha irmã pegou a extremidade cortada daquela cascavel, levou à boca e começou a chupar.

*Escritora norte-americana, filha de Paul Watkins, um dos braços direitos da seita de Charles Manson, que não teve participação nos assassinatos e, portanto, não foi condenado. Paul Watkins faleceu em 1990.

sexta-feira, março 15, 2013

As sacadas medievais para a irracionalidade do Pi


Autor: Samuel Arbesman

É o Pi Day (O Dia do Pi foi comemorado ontem). E para homenagear a data decidi fazer uma breve pesquisa histórica. Apesar de o π – a relação entre o perímetro de uma circunferência e seu diâmetro – ter sido bastante apreciado e calculado na Antiguidade, somente no século 18 provou-se que se tratava de um número irracional. Antes, várias aproximações foram realizadas, sendo que as mais exatas giravam em torno do número 3.

Perímetro da circunferência (Wikimedia/Commons)

Esses dias, naveguei pela página “Aproximações para π”, na Wikipedia, e percebi que havia uma nota dizendo que Maimônides – o físico e sábio judeu que viveu há 1000 anos – parecia ter feito uma alusão ao números irracionais em seus escritos. A fonte me levou ao livro “The Ancient Tradition of Geometric Problems”, utilizei o recurso de visualização da Amazon para acessar o conteúdo e assinalei uma suposta declaração ao comentário de Maimônides no Mishná, um conjunto de leis judaicas que integram o Talmude (quem quiser pesquisar melhor, confira os comentários em Eruvin 1:5).

Consegui localizar o trecho abaixo, cujo conteúdo é muito interessante (está em hebraico, e escrito em uma tipologia conhecida como Rashi script). Incluí por conta própria a livre-tradução, razoavelmente fiel, de alguns pontos de destaque:

Reprodução da revista Wired.com

A relação entre o perímetro de um diâmetro e o seu espaço não é conhecida. Não podemos precisá-la... Essa relação realmente não pode ser descoberta, a não ser pela aproximação... E podemos identificá-la na aproximação de um para três ou na sétima parte...”

Maimônides fala da aproximação para o π de 22/7, ou seja 3.14, que é uma boa aproximação. Além disso, ele chegou a deduzir que qualquer valor é necessariamente uma aproximação cuja precisão nunca poderia ser conhecida. Poderia-se dizer que essa evidência é real e que talvez esteja relacionada de alguma forma com a irracionalidade do π, poderia-se dizer também que isso não passa de considerações e que Maimônides simplesmente poderia ter pensando que o π era muito difícil de ser calculado. Além do mais, não há dúvida de que a tradução do hebraico (a partir do original em Árabe) para o inglês é ruim, o que gera maior confusão.

Por fim, essa é uma discussão intrigante e que nos deixa emocionados ao pensar que os sábios da Idade Média talvez já soubessem que o π só permitiria ser relativamente calculado.

Feliz Dia do Pi!

O autor agradece ao rabino Daniel Rockoff pela ajuda na tradução do texto. Quem se interessar pela tradução completa do trecho em hebraico, basta contatá-lo.

Fonte: Wired

quinta-feira, março 14, 2013

Para acabar com tudo, Operação Última Chamada


Autor: Anonymous

Membros do Anonymous em Los Angeles (Wikimedia/Commons)

Saudações Mundo,

Escrevemos hoje com a esperança de inspirar mudanças e progresso no Planeta.

Alguns acontecimentos recentes nos deixou ainda mais receosos em relação ao Mundo e têm nos levado ao mais profundo sentimento de injustiça. Os tempos modernos têm nos apresentado bastante sofrimento, aflição, dor, tristeza, remorso etc... Vemos amigos estressados em seus escritórios, sujeitos a perder seus empregos, sujeitos a instabilidade ante a manutenção da casa, do carro e da família inteira. Vemos o rico que não se importa, e o pobre que necessita de socorro. Vemos muitos sistemas judiciais ultrapassados sentenciando boas pessoas, e deixando os vagabundos livres, à vontade. Vemos governos que não podem funcionar, e pessoas sendo punidas por equívocos governamentais. Vemos diversas guerras inúteis sendo justificadas. Vemos matança, tortura, estupro, drogas, abuso, ódio, ameaça, crueldade, mentiras, segredos e mais uma infinidade de coisas que não deveriam existir...


Este Mundo é um grande negócio do mal, mas, antes de falar em qualquer mudança, devemos admitir em primeiro lugar que todos nós contribuímos para o problema. Enquanto humanos, de uma certa forma, é da nossa natureza gerar um impacto negativo em nosso meio ambiente. Por isso, quando olhamos para as grandes realizações do ser humano ao longo da nossa história, é frustrante enxergar o que temos hoje. É como se o avanço da civilização humana tivesse atingido um ponto gritante. Tecnologia, equipamentos, ciência etc... continuam evoluindo, mas a qual custo? No mundo de luxúria da vida moderna nós, contrariamente, impomos dor e sofrimento aquilo que não podemos ter. Pense nas coisas que você têm... É bem provável que o dinheiro foi um meio para adquirir essas coisas, mas o que as pessoas têm feito a fim de merecer esse dinheiro? O que os executivos têm feito? Você acredita que eles ganharam cada centavo honestamente? Ou o que eles fazem é sentar e encher os bolsos de dinheiro, espancando qualquer um que cruze o seu caminho? Em 2011, um executivo médio norte-americano “ganhou” mais de 11 milhões de dólares, algo aproximadamente 231 vezes maior que um trabalhador mediano. Em 1965, o raio de compensação Executivo-para-trabalhador era de aproximadamente ~20 para 1, em 1973 ~22 para 1, em 1978 ~29 para 1 e em 1989 ~59 para 1.

Uma diferença fundamental e que distingue essencialmente os seres humanos de outros primatas é a conectividade de nossos cérebros, mais predominantemente no que diz respeito ao córtex cerebral. Contudo, enquanto essas características estão restritas ao interior do cérebro, é no compartilhamento por meio de relações sociais e de comunicação que tal diferença se apresenta com força. Por outro lado, com o passar do tempo, o elo entre nós e outros primatas parece estar cada vez mais próximo. O que aconteceu aos seres superiores que olharam e cuidaram de todos os humanos e animais que habitavam esse planeta? Nós conseguiríamos levar nossas vidas sem depender dos outros? Ou, sem estar conectados à canais de comunicação, TV, e todo tipo de coisa que, seja lá o que for, a sociedade nos oferece e diz que devemos incorporá-la?

Se o resto da civilização cuidasse por um momento em tentar entender o Mundo da forma que nós (Anons) entendemos, talvez poderíamos realizar alguma mudança. Mudança que não seria fácil, apesar de que nós sempre estamos além da zona de conforto. O problema pode ser comparado ao computador infectado com um vírus. Se o vírus for identificado rápido, isso não representa qualquer problema. Mesmo que o sistema operacional esteja em situação quase irrecuperável, alguém sempre poderá reinstalá-lo. Contudo, se o computador é infectado por um vírus atrás do outro e não é reparado pode ocorrer sérios danos ao hardware. O problema também poderia ser comparado ao carro com vazamento no cabeçote. Mesmo que você pague caro para trocar a junta com um pequeno vazamento, isso não seria algo absurdo tendo em vista a necessidade do serviço. Por outro lado, se alguém continuasse a dirigir o carro com o óleo gotejante, mesmo depois de misturar o combustível e os fluídos, provavelmente o reparo seria muito mais caro, podendo levar o carro até à perda total.

Mas o que deveria ser feito diante os dilemas da humanidade? Ao que tudo indica a melhor aposta seria recomeçar o sistema, a exemplo da Grande Depressão. Isso poderia ser duro por um momento, assim como foi durante a Grande Depressão, mas pense nos ganhos que poderíamos obter. As pessoas se conscientizariam da importância da família e dos amigos, de que não precisam de todas as coisas que nós acostumamos ter. A imaginação das pessoas cresceria, e elas começariam a pensar mais em si mesmas. Homens se tornariam mais gentis e mulheres seriam mais delicadas. As dívidas acabariam, o sistema monetário seria reinventado. Governos seriam reformados para melhor atender suas populações. A lista é grande... Então, o que alguém pode fazer para recomeçar o sistema? A resposta reside nos motivos da Grande Depressão. Hoje, o mundo do dinheiro eletrônico pode ser algo maravilhoso. E o pânico dos investidores perdendo dinheiro o potencial caminho para a perfeição. Sacrifícios sempre foram necessários em prol de grandes realizações, mas se nós continuarmos investindo na mesma direção iremos sofrer o pior de todos os destinos, algo que nenhum de nós espera e que pode ser mudado agora. Sendo assim, o melhor caminho para mudança é um plano de ação, com ações boca-a-boca e algumas boas tags de códigos.

Quando analisamos o problema, as pessoas pesam os prós e contras e tentam buscar mais subsídios para a tomada de decisão. Quando examinamos todos os caminhos que levaram aos prejuízos, deveríamos nos esforçar para deixar os preconceitos de lado e tentar prever quais os caminhos seriam mais benéficos para o futuro deste Mundo. Em outras palavras, quando olhamos para o futuro deveríamos tentar determinar todos os benefícios e conseqüências para cada pessoa e quais as melhores rotas tomar.

Qualquer pessoa que observar uma colônia de formiga certamente vai dizer que aquilo não passa de uma imagem da civilização humana. É notável que ambos transitam pelos seus ambientes, completamente óbvio que residem longe dessas áreas, e que trabalham todos os dias até a hora de morrer. Ambos ocasionalmente saem de seus territórios e, se o fazem, visitam locais próximos e conhecidos. O observador também pode notar uma diferença entre homens e formigas. Quando acontece um distúrbio no formigueiro, as formigas correm, a exemplo dos homens quando estão no meio de um tumulto, exceto aquelas que agem de modo abnegado e direcionadas a fazer apenas o que beneficia o formigueiro como um todo. As combatentes defendem as demais, as trabalhadoras carregam os ovos da rainha e os enterram, outras protegem a rainha dentro do formigueiro, no caso de exposição. Isso não significa que as formigas possam encarar diretamente quem as persegue, significa apenas que elas vão morrer fazendo isso. É seu dever.

Por último, sabe-se que a data e os detalhes desta operação devem ser decididos por todos nós. Qualquer um é bem-vindo a ingressar nessa luta e, juntos, iremos despertar para um Mundo melhor!

Fonte: anonnews.org

quarta-feira, março 13, 2013

Escritores pedem aos seus líderes políticos que salvem a reforma da imprensa


Carta aberta de nomes como Stephen Fry diz que a votação do projeto de lei sobre calúnia e difamação corre o risco de ser abafada pelo falatório de Leveson

Autor: Lisa O'Carroll

Escritor britânico Stephen Fry (Wikimedia/Commons)

Alguns dos escritores mais famosos de língua inglesa, e que inclui nomes como Stephen Fry, Sir Tom Stoppard, William Boyd, Margaret Drabble, Ian McEwan e Sir Salman Rushdie, chamaram a atenção dos seus principais líderes políticos para a implementação da lei de calúnia e difamação após 170 anos de silêncio a cientistas, escritores, ativistas e jornalistas.

Em carta aberta a David Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband, os escritores disseram estar “profundamente preocupados” com o fato de que, após três anos de discussões exaustivas no legislativo, o projeto de lei seja abafado, simplesmente porque o falatório político apresentado no mês passado pelo relatório Leveson causou polêmica no que diz respeito à regulamentação da imprensa.

Organizada por um grupo de escritores ligados à English Pen, a carta sugere: “é totalmente inapropriado, e temerário, que a reforma da imprensa seja sacrificada pela ineficiência política em curso”.

As leis de imprensa britânica atuais, argumentam os escritores, não sofrem mudanças substanciais desde 1843, o que rendeu a Londres o título de capital mundial da calúnia, o que não é “apenas uma vergonha para o país, mas um assunto de âmbito internacional”. Em 2010, o presidente Barack Obama, aprovou leis que protegem os cidadãos norte-americanos dos tribunais britânicos.

Julian Barnes, Claire Tomalin, Ali Smith, Dame Antonia Fraser, Sir David Hare, Susie Orbach e Michael Frayn, que também assinam a carta, estão de acordo que o aperfeiçoamento das leis de imprensa pode estar à beira do colapso em razão das emendas inseridas no projeto de lei, no mês passado, por Lord Puttnam, durante o encerramento da sessão na House of Lords (parlamento).

Há três anos em formatação, o projeto de lei foi incluído no discurso dos partidos Conservador, Trabalhista e Liberal Democrata. Até o mês passado, não se tocou em regulamentação da imprensa. Mas um grupo frustrado com a ineficiência do relatório Leveson entre os partidos políticos obteve vitória esmagadora no parlamento e adicionou cláusulas ao projeto de lei que podem encobertar as atividades investigativas dos jornais.

A escritora Gillian Slovo, filha do líder anti-apartheid Joe Slovo, contou ao The Guardian: “seria terrível se essa lei terminar abafada, o que não significa falta de apoio dos três partidos, por que eles estão apoiando, mas um prejuízo enorme causado pelas contradições do relatório Leveson. Seria uma grande perda”.

Ela disse que “uma das grandes forças da Inglaterra sempre foi a liberdade de expressão, mas as leis de imprensa se tornaram o calcanhar de Aquiles já que na maioria das vezes são utilizadas para silenciar os menos favorecidos”.

Defensores da Campanha para Reforma das Leis de Imprensa, que incluem o Lord Lester, acreditam ser possível salvá-la mas isso tem que cair no interesse público até o meio de março. Fontes políticas confirmam que não há crítica quanto à discussão, e que assim continuará enquanto Leveson não parar de falar e aumentar o receio de que o projeto de lei já esteja morto.

Boyd, vice-presidente da English Pen, disse que as emendas de Puttnam não tem “nada haver com o princípio das reformas, cuja validade já foi estabelecida” através de debates e consultas diretas em três comitês do parlamento.

As emendas de Puttnam incluem propostas para a criação de uma agência reguladora que seria responsável em resolver conflitos com jornais, além de um sistema de incentivos que leva a adesão obrigatória dos editores – sob o risco de encarar o órgão regulador de imprensa, medidas punitivas e custos de ações na alta corte.

Os escritores lembram que um número significativo de cientistas tiveram que lidar, nos últimos três anos, com “ações judiciais por calúnia simplesmente por denunciar práticas médicas perigosas”. Se o projeto de lei sobre calúnia e difamação virar lei, o risco de ações contra a imprensa cairia devido ao novo direito de defesa. Além disso, grandes corporações tais como as companhias de medicamentos teriam que provar sérios prejuízos financeiros antes de tomarem qualquer atitude.

“Se a lei não for reformulada, intimidações continuarão a reprimir a publicação de estórias de interesse público e, também, que abordam questões como saúde e segurança pública”, disse a carta.

Os demais assinantes do texto são Lisa Appignanesi, Jake Arnott, Amanda Craig, Victoria Glendinning, Mark Haddon, Ronald Harwood, Michael Holroyd, Howard Jacobson, Hisham Matar, Philippe Sands, Will Self, Kamila Shamsie e Raleigh Trevelyan.

O primeiro-ministro disse que apóia o projeto de lei apesar de se sentir intimidado diante as emendas propostas por Puttnam. “O governo está firmemente ao lado dos objetivos originais do projeto de lei. No entanto, o governo não pode apoiar as emendas de Puttnam e nem removê-las uma vez que isso não faz parte do nosso estatuto”, disse o porta-voz de David Cameron.

Já o porta-voz dos Trabalhistas disse: “Nosso partido está comprometido, através de esforços absolutos, com a modernização dessa ultrapassada lei de calúnia e difamação, nós formatamos um conjunto original de propostas que ainda não estão no ponto. Mesmo assim, seria uma ofensa para o governo prevenir o parlamento e dizer como eles devem trabalhar em relação as essas propostas que são muito necessárias para atualizar as nossas leis”.

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Íntegra carta aberta
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Estamos escrevendo essa carta como forma de cobrá-los o comprometimento com a reforma da imprensa e a garantia de que o projeto de lei sobre calúnia e difamação será aprovado.

Nossos três maiores partidos fizeram promessas em seus discursos e reafirmaram o compromisso com a reforma em concordância com a coalizão governista.

Estamos profundamente preocupados que o projeto de lei, que segue sob ameaça permanente, sofra a inclusão de uma nova cláusula apresentada recentemente no legislativo e que introduz elementos sugeridos pelo juiz Leveson. Inserir mais propostas de regulamentação da imprensa no projeto de lei sobre calúnia e difamação não é viável – conforme o próprio relatório Leveson observou, a imprensa não é de sua responsabilidade. Sendo assim, é totalmente inapropriado, e temerário, que a reforma da imprensa seja sacrificada pela ineficiência política em curso. O projeto pode significar uma oportunidade que não se deve desperdiçar.

Esse é um projeto popular que tem o suporte de cientistas, grupos de consumidores, juristas, especialistas, escritores, jornalistas e blogueiros – mais de 60 mil assinaturas foram recolhidas para a petição na Campanha pela Reforma das Leis de Imprensa. Esse raro consenso em toda a sociedade cresce a partir da consciência de que as leis de imprensa da Inglaterra e do País de Gales podem esfriar o discurso daqueles que têm coragem de falar sobre assuntos de interesse público.

Desde que a campanha pela reforma da imprensa começou há três anos, vocês devem estar cientes de casos como o dos cientistas que tiveram que encarar ações judiciais por calúnia simplesmente por denunciar práticas médicas perigosas, e dos jornalistas cujas investigações não puderam ser publicadas no Reino Unido por receio de ações nos tribunais, mediante cartas ameaçadoras de advogados reclamando a exposição de tais práticas ruins. Se a lei não for reformulada, intimidações continuarão a reprimir a publicação de estórias de interesse público e, também, que abordam questões como saúde e segurança pública.

Nossas leis de imprensa não são apenas uma vergonha para o país, mas um assunto de âmbito internacional. A comissão de direitos humanos da ONU referiu-se ao Reino Unido no que diz respeito ao impacto da imprensa na liberdade de expressão; os EUA mudaram a legislação para proteger seus cidadãos dos nossos tribunais de imprensa.

O projeto de lei sobre a calúnia e difamação promete colocar as nossas leis de acordo com o Século XXI, ao proporcionar proteção efetiva para a publicação online e permitir que as corporações parem com suas intimidações silenciosas, ao dar fim a uma reivindicação ridícula e insignificante e introduzir uma segurança de interesse público de longa data.

Esse é um momento histórico na liberdade de expressão neste país. Como escritores e membros do English Pen, pedimos-lhes que honrem as promessas e garantam que o projeto de lei seja completamente aprovado até o final da sessão do parlamento.

Lisa Appignanesi, Jake Arnott, Julian Barnes, William Boyd, Amanda Craig, Margaret Drabble, Antonia Fraser, Michael Frayn, Stephen Fry, Victoria Glendinning, Mark Haddon, David Hare, Ronald Harwood, Michael Holroyd, Howard Jacobson, Hisham Matar, Ian McEwan, Susie Orbach, Salman Rushdie, Philippe Sands, Will Self, Kamila Shamsie, Gillian Slovo, Ali Smith, Tom Stoppard, Claire Tomalin, Raleigh Trevelyan.

Fonte: The Guardian
Leia mais: Carta Capital

* Jornalistas brasileiros, guardadas as devidas proporções, é bom ficar de olho na PEC 37

segunda-feira, março 11, 2013

Meu querido roteiro


Publicado originalmente em 1982, Sonhos de Bunker Hill – John Fante (1909-1983) – conta a história de Arturo Bandini, escritor que deixa o interior dos EUA e vai para Califórnia tentar o sucesso em Hollywood. Durante a empreitada de ajudante de garçom, ele é descoberto, vai trabalhar como roteirista e tenta emplacar o roteiro de Sin City (Cidade do Pecado), aquela que seria sua obra-prima para o cinema. Os contratempos se sucedem, mas finalmente Bandini é contratado por um grande produtor, que coloca a bela Velda van der Zee para ajudar na edição do script. O roteirista enlouquece ao ler a colaboração de Velda, que preservou apenas o título. O resultado final (abaixo) é uma aula de roteiro, referência a ser seguida por quem pretende escrever roteiros comerciais ou a ser negada por aqueles que, a exemplo de Bandini, prezam criatividade ao contar uma história.

“Uma diligência roda através da planície de Wyoming perseguida por uma bando de índios. Diligência é forçada a parar. Índios apinham-se sobre ela. Dois passageiros: reverendo Ezra Drew e filha Priscilla. Chefe índio arrasta Priscilla para fora, joga-a em seu cavalo. Priscilla luta. Chefe monta, cavalga embora com ela. Índios vão atrás.

No tempo das diligências (John Ford/1933)

Aldeia indígena. Chefe chega com Priscilla, empurra-a para dentro da tenda, então entra. Chefe índio é Magua, inimigo do homem branco. Ele prende garota, apalpa-a rudemente, beijando-a enquanto ela se debate.

Pela colina vem pelotão liderado por xerife Lawson. Ele desmonta, ouve grito da garota, entra na tenda, luta com Magua, derruba-o, ajuda a garota a sair, coloca-a na sela de seu cavalo, monta e vai embora. Pelotão vai atrás.

Sin City. Pelotão chega, xerife tira Priscilla do cavalo. Pelotão traz o reverendo Drew. Priscilla corre para os braços dele. Habitantes da cidade se reúnem. Xerife Lawson leva Priscilla para o Sin City Hotel.

Naquela noite, povo da cidade se reúne no hotel. Xerife aparece com Priscilla e reverendo Drew. Povo da cidade implora a eles para que fiquem. Igreja local incendiada recentemente por índios hostis do chefe Magua. Pessoas exortam reverendo Drew a reconstituir a igreja. Ele promete a pensar no caso. Tocando banjo, reverendo Drew acompanha filha na canção I Love You, Jesus. Muitos aplausos. Segurando pandeiro, Priscilla circula entre povo da cidade, e eles jogam moedas dentro do pandeiro. Reverendo Drew sobe na varanda do hotel e profere discurso. Ele e filha prometem permanecer e reconstruir igreja de Sin City. Cidadãos se dirigem para um grande saloon. Mais uma vez reverendo Drew dedilha banjo, e Priscilla canta Lord Welcome Me. Ela passa pandeiro de novo e obtém generoso donativo.

Igreja sendo reconstruída. Povo da cidade ajuda, carregando madeira e construindo. Xerife chega a cavalo e coloca Priscilla em sua charrete. Eles saem. Em adorável bosque de pinheiros, xerife abraça Priscilla, e eles se beijam. Noite. Saloon de Sin City. Priscilla canta The Lord Is My Sheperd, enquanto clientes do saloon ouvem e admiram a adorável garota. Ela passa pandeiro. Um bêbedo do balcão a agarra, tenta beijá-la. Xerife Lawson intervém, segue-se luta. Lawson derrota intrometido. Priscilla olha xerife agradecidamente.

Na encosta com vista para a cidade, o sinistro Magua está sentado em seu cavalo, observando. Ele desmonta e chega furtivamente à janela do saloon enquanto Priscilla faz um pequeno discurso para clientes do bar. Ela quer que o povo da cidade forme um coro de igreja para que se possa cantar hinos e fazer oferendas para nova igreja. Povo da cidade concorda e aplaude. Do lado de fora da janela, o malvado Magua dá um risinho enquanto escuta.

Sucedem-se mudanças em Sin City. Nada mais de álcool no saloon da cidade. Nada mais de jogo. Sob direção de Priscilla, grupo de mulheres canta hinos edificantes. Prossegue trabalho na igreja. Chega dia em que igreja está pronta, e povo da cidade se reúne para primeiro serviço. Assistindo do alto, Magua observa os acontecimentos lá embaixo e vai embora cavalgando.

Noite. Mulheres de Sin City preparam churrasco do lado de fora da igreja. Uma dança da quadrilha em andamento, liderada por reverendo Drew e seu banjo. Priscilla rodopia com a música, seu par é o xerife. Enquanto isso, na aldeia indígena, Magua reúne suas forças. Índios com corpos pintados montam seus cavalos, e Magua os conduz.

Dança da quadrilha. Xerife leva Priscilla para a mata. Ela ergue o rosto para o beijo dele. Ele a pede em casamento. Ela aceita. De repente, o som de galope e gritos de índios. Magua e seus araphoes sedentos de sangue descem a colina. Cavalgando furiosamente, cercam a igreja e povo da cidade com gritos de gelar o sangue e galopar trovejante. Aos gritos, povo da cidade bate em retirada para dentro da igreja, enquanto índios continuam em círculo e disparam seus rifles. Xerife e Priscilla correm para segurança da igreja nova. Dando voltas sem parar, índios fecham o cerco em torno da igreja. Tiroteio. Grito dos feridos. Índios arremessam tochas no telhado da igreja. Povo da cidade monta posições de tiro nas janelas da igreja. Batalha furiosa. Mulheres recarregam rifles. Priscilla recarrega rifle de seu pai. Naquele momento ele é baleado. Priscilla atira no índio que atingiu seu pai. Então ela se vira, pega em seus braços o pai tombado e chora.

Enquanto isso, o traiçoeiro Magua desmontou e vem deslizando na direção da porta da igreja. Ele entra sem ser visto e se atira sobre Priscilla, coloca as mãos sobre sua boca e a arrasta para fora. Jogando-a sobre o lombo de seu cavalo, ele monta atrás dela e vai embora cavalgando no momento em que xerife Lawson aparece no vão da porta. Fazendo pontaria certeira, Magua dispara rifle contra xerife, e bala o atinge no ombro. Lawson vacila, mas não cai. Em vez disso, cambaleia em direção de Magua, que cavalga com Priscilla se debatendo.

Ferido, mas destemido, xerife vai às cegas até seu cavalo, monta e cavalga em perseguição. Pela colina e várzea ele seue índio em fuga e garota. Eles chegam a um riacho na colina e param. Sangrando e fraco, Lawson se aproxima a cavalo, então cai no chão. Ansiosamente, Magua desmonta com machadinha ameaçadora. Batalha feroz, homens rolando e se engalfinhando, Priscilla assistindo horrorizada. Eles caem dentro do riacho. Magua pula em cima do xerife enfraquecido, tentando afogá-lo, mas xerife se liberta.

Fraco demais para resistir por mais tempo, xerife tomba dentro da d'água. Com grito de triunfo, Magua ergue a machadinha para golpeá-lo. De repente, o estampido de um rifle quebra o silêncio. Magua cai dentro d'água. Priscilla, com rifle fumegante nas mãos, desmonta e corre para xerife. Ela o arrasta para fora do riacho. Enfraquecido, mas audaz, xerife joga braços em volta dela. Eles se levantam e se afastam cambaleantes. Magua jaz morto n'água.

De volta a Sin City, prossegue cerca à igreja. Brancos lentamente assumem controle. Lançam contra-ataque. Combate corpo a corpo. Muitos índios batem em retirada. Outros são capturados por povo da cidade. Uma dúzia de selvagens é levada para a cadeia da cidade. Priscilla e xerife Lawson surgem ao longe. Preso em volta do cavalo deles está corpo de Magua. Grande saudação do povo da cidade. Priscilla corre para os braços do pai.

Epílogo. Radiante manhã de domingo. Cantoria vinda igreja. Dentro, Priscilla lidera coro em Oh Gentle Jesus. Igreja lotada com povo da cidade escutando em reverência. Nos bancos de trás, separada dos demais, uma dúzia de índios capturados, penitentes, com cabeças abaixadas. Xerife vai para o lado de Priscilla. Ela olha para cima em adoração. Fade out.”

John Fante
Tradução: Lúcia Brito
Coleção L&PM Pocket
Ref. 317
168 páginas
ISBN 85.254.1260-0
R$ 15,00

quarta-feira, março 06, 2013

Princípios básicos do sucesso de vendas em mercados B2B


Clientes B2B dizem que o preço é a sua maior preocupação, mas o que eles realmente querem é desfrutar uma grande experiência de vendas. Para os representantes de vendas, isso significa ter que respeitar direitos básicos

Autores: Nate Boaz, John Murnane e Kevin Nuffer
Contribuições: Eric Harmon e Maria Valdivieso de Uster

Quando o assunto é construir relações de valor com os clientes, representantes de vendas são profissionais altamente criticados nas linhas de frente. Mas eles estão respeitando direitos básicos? Clientes querem ser contactados de maneira equilibrada, e não bombardeados. Os representantes de vendas devem pensar os seus produtos e serviços intimamente e tentar ver como é possível estabelecer comparativos com os seus concorrentes. Clientes precisam se informar como produtos ou serviços podem exatamente fazer a diferença para os seus negócios. E, embora eles digam que o preço é a maior referência na tomada de decisão, a experiência de satisfação na venda é, no final das contas, o mais importante.

Essas são as principais conclusões de uma pesquisa realizada com responsáveis pela tomada de decisão em pequenas, médias e grandes empresas dos EUA e do Oeste Europeu. Foram mais de 1.200 entrevistas com profissionais da área de compras de produtos e de serviços de alta tecnologia. As respostas para produtos complexos e sua aplicação imediata em algumas indústrias B2B, compreendendo também suas complexidades, foram confrontadas com a percepção dos usuários finais em relação aos processos envolvendo pontos de venda. Os dados são consistentes.

Encontrou-se enorme diferença entre o que os clientes diziam ser importante e o que efetivamente foi demonstrado de acordo com seus comportamentos. Os clientes insistiam que o preço era um fator determinante e que influenciava suas opiniões quanto ao fornecedor, à visão de resultados, além de suas decisões de compra. No entanto, quando examinou-se o que efetivamente determinou como os clientes classificaram o desempenho geral das vendas, alguns dos fatores mais importantes apontados foram as características dos produtos e serviços e a experiência total com o processo de venda. O significado direto desses dois elementos está no ponto alto da seguinte conclusão: o fornecedor primário viu que uma alta performance na força de vendas leva ao incremento, em média, de 8 a 15 pontos percentuais na sua fatia de clientes.

A próxima descoberta também foi muito importante. Dos muitos hábitos que arruínam a experiência de vendas, dois deles são relativamente fáceis de determinar conforme descrevem 55% dos clientes: a dificuldade de se obter informações adequadas do produto e o contato exagerado das empresas. Somente 3% dos entrevistados disseram não ser o suficiente contatados, sugerindo clientes menos abertos a interações mais significativas.

Onde os representantes de vendas erram
Dez. 2009 (n = 1.252)

Percentual de clientes norte-americanos e europeus que deram sua opinião a respeito de atividades “que arruínam” as vendas:


1 - Contato exagerado (pessoalmente, por telefone ou via email) – 35%
2 - Falta de conhecimento a respeito de um ou outro produto ou de seus concorrentes – 20%
3 - Falta de conhecimento da empresa a respeito dos benefícios dos seus produtos e serviços para o meu negócio – 9%
4 - Estilo muito agressivo de vendas – 8%
5 - Esquecer ou ignorar o cliente após a assinatura de um contrato – 8%
6 - Outros – 20%*

* Compreende a seguinte ordem, citada por <6% dos entrevistados: equipe de vendas inconsistente, demora na resposta de questões durante as relações de venda, pouco contato, falta de auxílio na otimização de despesas, falta de um ponto comum de contato disponível e falta de compartilhamento de informações específicas a respeito do meu negócio.

Felizmente, tais hábitos prejudiciais podem ser reparados. As empresas podem tratar a falta de informações do produto através da centralização do desenvolvimento de conteúdo para garantir uma mensagem uniforme e criando proposições atrativas de valor aos clientes. E, para assegurar uma compreensão profunda, representantes de vendas podem receber um treinamento empírico no próprio trabalho, preferencialmente lado a lado com a equipe de desenvolvimento de conteúdo.

Por fim, representantes de vendas não precisam saber de tudo. Nesse caso em específico, a pesquisa identificou clientes que estão muito felizes em utilizar auto-serviços ou ferramentas online e em recorrer seletivamente ao suporte de especialistas em situações mais complexas.

É notável o equilíbrio direto entre clientes bem informados e a menor requisição de conhecimento para suas necessidades momentâneas. Para isso deve existir uma estratégia clara baseada nessas necessidades e nos lucros potenciais que podem ser alcançados – com a implementação frequente de cronogramas.

Um bom meio de contato é uma ligação periódica através de situações de valor para os clientes, tais como publicações semestrais de negócios que ofereçam a oportunidade de se avaliar as suas necessidades e de garantir a sua satisfação. O importante é reconhecer que os clientes estão olhando com cara feia para os gastos com suas interações, deste modo qualquer ligação com eles deve ser muito significativa.

A experiência de vendas é um fator primordial, e um bom começo é respeitar direitos básicos. As empresas devem examinar com exatidão o seu desempenho e responder as seguintes questões: quais são os principais fatores de influência na experiência de vendas? O que a minha equipe faz e que pode prejudicar as nossas relações? Qual a percepção que os meus clientes têm da minha força de vendas comparada a visão deles dos nossos concorrentes? As respostas das empresas a essas perguntas são algo singular para o conhecimento e compreensão de seus principais dilemas, além de uma forma de identificá-los e persegui-los.  

Fonte: Mckinsey.com

terça-feira, março 05, 2013

Inci Aral: O futuro do romance


Apesar da pressão social e comercial, a procura por bons romances não diminuiu*

Autor: Inci Aral**

O mundo literário parece conviver com o receio contínuo em relação ao futuro do romance – uma questão que, se está morta ou não, ainda continua causando barulho regularmente. O romance, tal como o conhecemos hoje, surgiu com a publicação de Dom Quixote, de Cervantes, e atingiu o auge nos séculos 18 e 19. As primeiras inquietações a respeito do “futuro” surgiram nas eras de Flaubert, Stendhal e Austen, e já previam o tal fim. Não faltou quem esperasse literalmente o anúncio do funeral, mas o romance, não todos, é claro, resistiu e continua resistindo até hoje. E vive bem, em alta, forte e tão fértil como nunca.


Facsímile da primeira edição de Dom Quixote (Domínio Público-Wikimedia)

O romance representa a arte de explorar a vida humana. Reflete a natureza do Homem, a alma das sociedades e o espírito de vida das cidades. Os grandes romancistas criam obras que não são pertinentes apenas aos seus próprios países, conforme a linguagem por atacado da história, mas trabalhos de importância global que apresentam outros pontos de vistas que não os estabelecidos, onde são empregados os mais elevados princípios para se escrever discursos épicos sobre os períodos mais tumultuados da humanidade.

É triste para um amante da ficção imaginar a morte do romance ou, necessariamente, o seu próprio fim. Felizmente, não há motivos para isso. Desde que o mundo progride em passos largos a partir da era industrial, o romance tem sido conduzido firmemente para acompanhar as ordens do dia. Se tal forma de arte tão influente tivesse que se apagar nós também teríamos que abandonar as esperanças com relação a outras belezas e tesouros da criação humana.

Cada vez se fala mais do futuro do romance do que do romance em si. Será que isso acontece porque agora existe mais liberdade do que no passado? Hoje em dia, tudo é possível. Além dos estilos e das próprias narrativas, o romance não tem limites e, por isso, nunca cessou de procurar por novidades. E se deve ser encontrado no meio digital novos campos para a sua existência, então isso acontecerá em paralelo com a versão impressa, o que permitirá ao romance evoluir para algo novo e completamente diferente.

A maioria dos leitores atuais está em frente da tela. Nos países desenvolvidos menos da metade dos adultos lêem romances, e o número de leitores, especialmente entre os mais jovens, está em ligeira queda. O computador é usado para tudo, entretenimento, estudo, leitura, compras até como forma de se expressar individualmente, e assim tornou-se parte fundamental da vida diária das pessoas. Entretanto, o fato de que os leitores encontram cada vez mais o que precisam na frente das telas não significa que eles vão parar de ler. A queda no número de leitores deve ser atribuída à batalha do papel versus o digital e à conveniência da situação. Ao mesmo tempo em que a leitura digital vem se difundindo, o romance pode emergir vitorioso desse processo.

Na Turquia, são publicados em média 500 romances todos os anos, sendo que a maior parte deles são inéditos. Em 2012, esse número saltou para exatamente 780. As livrarias na Turquia estão lotadas de belos livros e de jovens ávidos por leitura. Na internet encontra-se uma grande quantidade de livros, revistas literárias, websites e fóruns com debates intensos sobre literatura. Em resumo, o interesse por romances permanece expressivo. Mesmo que em um futuro próximo a tecnologia continue a desenvolver e se inventar ainda assim os romances serão escritos utilizando-se de atrativos e apelos que nós não poderíamos nem imaginar.

Seria o romancista digital do futuro alguém dotado de malandragem, consideravelmente emotivo ou um insensível quebrador de regras? Eu não sei. Meu receio é que a intensidade e o conteúdo sofram em nome da técnica e que a alma dos romances se perca. Desde que a tecnologia tornou nossa vida mais dinâmica, o mundo digital tem sido o símbolo da inteligência. Isso mudou a nossa maneira de ver, sentir e pensar. O mundo sobre o brilho da técnica esteriliza todo tipo de processo imaginativo e paralisa a nossa própria voz. Além do mais, isso brinca com os nossos desejos. O resultado final é que o romance, queiram ou não, será forçado a entrar cada vez mais em um contexto limitado. De resto, a internet ainda não desenvolveu uma linguagem distinta o bastante no que diz respeito à arte de escrever um romance, apesar de que esse ponto é altamente possível de ser atingido em pouco tempo.

Na minha opinião, um dos problemas que ameaçam o futuro do romance é a uniformidade imposta pelas condições de mercado. Editores, de olho nas vendas, arriscam suas fichas em romancistas promissores inclinados a escrever sobre literatura barata que aborda espiritualidade, sexo ou assuntos banais do momento. São escritores incentivados a trabalhar gêneros fúteis, como o misticismo, e a transformar o romance em uma sensação do momento. Esses livros “fast-food” vendem milhões no mundo todo, quando milhares de romances de alta qualidade são relegados ao pó nas prateleiras.

Não resta dúvida de que nunca foi fácil dividir a linha entre o bom e o ruim. Os leitores escolhem um romance de acordo com o seu perfil. De qualquer modo, a publicidade agressiva e a pressão da cultura popular de massa têm sido determinante na escolha do leitor. O escritor que se adequa ao mercado pode se tornar bem sucedido embora não consiga impedir que o seu trabalho seja explorado e pirateado na internet. A luta contra a pirataria na Turquia não tem avançado muito. Aqui esse não é um assunto exclusivo às grandes cidades, livros impressos ilegalmente são vendidos abertamente nas livrarias de Anatolia e romances são baixados sem qualquer permissão.

Durante o encontro Edinburgh World Writers', o escritor China Miéville sugeriu que, afim de garantir a integridade do Estado, fosse destinado salário aos escritores. Para nós, isso parece piada. Enquanto ainda existir em nosso país a mentalidade de censurar escritores, de atirá-los na prisão, de abrir casos judiciais contra a organização PEN e de considerar perigosos clássicos como Ratos e Homens, de Steinbeck, será impossível aos romancistas viver dentro de um estado que deveria proteger e lutar pelos seus direitos.

Apesar de tudo, o romance e a psicologia individual continuam muito importantes. Escritores consagrados ainda são premiados e respeitados. Existe também grande procura por cursos e oficinas de escrita criativa. Escrever um romance se tornou o grande sonho para algumas pessoas. Estamos cercados de novas surpresas em narrativas, estruturas e linguagens. O mundo do romance é tão fértil e fascinante que se mantém em pé diante o domínio da imagem.

No entanto, a perspectiva para o futuro é nebulosa. O que os seres humanos esperam para o planeta? Como acabar com a crise econômica? Será que uma outra guerra mundial está prestes a ocorrer? Nessas situações o escritor pode se manter retraído no seu próprio mundo, indiferente aos eventos ao seu redor? Seria possível fechar os olhos e se desligar de tudo que estaria acontecendo? A resposta é sim e não. E nesse caso, podemos dizer que o espírito político do nosso tempo não se refletiu o bastante nos romances. Quando a indiferença e a recreação são a natureza das notícias, a política é vista com desprezo estimulando uma existência à parte movida por exemplos negativos e obsoletos.

Seja qual for o regime opressivo em questão, nós não podemos endossar a censura e a perseguição aos escritores, seja através do exílio ou do atentado contra suas vidas transformando-a em uma existência silenciosa. Para garantir que haja livre expressão, nós devemos sentir total desprezo pelas proibições e restrições impostas aos escritores.

A literatura e o romance estão sobre o controle de várias pressões discretas; certos assuntos são boicotados e transformados em uma cópia do aceitável pela mídia antes de serem publicados. É muito bom que escritores notáveis no mundo todo, de todas as idades, não cedam sutilmente à atual exposição e que continuem questionando com habilidade todo novo plano falso para a nossa felicidade.

Os próximos anos certamente nos dirá, com maior clareza, de que maneira o que nós estamos plantando atualmente irá afetar na prática escritores e romances. Qual o rumo que as coisas vão tomar, qual será a melhor dinâmica e de onde os assuntos vão surgir?

Quanto o marketing, que tanto afeta adversamente a inspiração, visão e processo criativo dos escritores, influenciará para baixar o nível das obras? A fim de proteger esse espírito e essa paixão, e reconquistar a herança perdida no romance atual, será preciso compreender a vida em todos os seus aspectos, e conhecer todos os símbolos e sentimentos de dor ao longo dos tempos. Por outro lado, assim como a queda espiral da humanidade segue desenfreada, o romance também pode estar nos últimos suspiros.

* Esta é uma versão editada da palestra de Inci Aral na Edinburgh World Writers' Conference, em Izmir, na Turquia, e foi traduzida para o inglês por Caroline Stockford, e apresentada na Yasar University e na British Council. A versão completa de todos as palestras estão disponíveis na página da Edinburgh World Writers' Conference.

** A escritora Inci Aral nasceu em 1944, na Turquia. Publicou quase 20 livros entre ensaios, romances e contos.

Fonte: The Guardian