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segunda-feira, setembro 14, 2015

Carregando o Mundo nas Costas

Poema inscrito no II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo. 
Autoria: Luciano Bitencourt de Freitas Andrade

CARREGANDO O MUNDO NAS COSTAS

Eu sou estaca, sempre estaca,
Quero ser chão.
Aí é quando tudo desaba,
Pois sustento,
Nunca: sustentação.

Eu sou estaca,
Sempre base,
Sempre apoio,
Mas ao contrário, não tenho em quê
Me apoiar.

Então, eu caio;
Então, eu caio.
Sou sempre estaca.

Entretanto,
E nem por isso,
Eu me julgo
Um Jesus Cristo!
Um Jesus Cristo!
Eu sou sempre estaca.

Acesse, curta, compartilhe e comente: II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo.

quarta-feira, março 13, 2013

Escritores pedem aos seus líderes políticos que salvem a reforma da imprensa


Carta aberta de nomes como Stephen Fry diz que a votação do projeto de lei sobre calúnia e difamação corre o risco de ser abafada pelo falatório de Leveson

Autor: Lisa O'Carroll

Escritor britânico Stephen Fry (Wikimedia/Commons)

Alguns dos escritores mais famosos de língua inglesa, e que inclui nomes como Stephen Fry, Sir Tom Stoppard, William Boyd, Margaret Drabble, Ian McEwan e Sir Salman Rushdie, chamaram a atenção dos seus principais líderes políticos para a implementação da lei de calúnia e difamação após 170 anos de silêncio a cientistas, escritores, ativistas e jornalistas.

Em carta aberta a David Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband, os escritores disseram estar “profundamente preocupados” com o fato de que, após três anos de discussões exaustivas no legislativo, o projeto de lei seja abafado, simplesmente porque o falatório político apresentado no mês passado pelo relatório Leveson causou polêmica no que diz respeito à regulamentação da imprensa.

Organizada por um grupo de escritores ligados à English Pen, a carta sugere: “é totalmente inapropriado, e temerário, que a reforma da imprensa seja sacrificada pela ineficiência política em curso”.

As leis de imprensa britânica atuais, argumentam os escritores, não sofrem mudanças substanciais desde 1843, o que rendeu a Londres o título de capital mundial da calúnia, o que não é “apenas uma vergonha para o país, mas um assunto de âmbito internacional”. Em 2010, o presidente Barack Obama, aprovou leis que protegem os cidadãos norte-americanos dos tribunais britânicos.

Julian Barnes, Claire Tomalin, Ali Smith, Dame Antonia Fraser, Sir David Hare, Susie Orbach e Michael Frayn, que também assinam a carta, estão de acordo que o aperfeiçoamento das leis de imprensa pode estar à beira do colapso em razão das emendas inseridas no projeto de lei, no mês passado, por Lord Puttnam, durante o encerramento da sessão na House of Lords (parlamento).

Há três anos em formatação, o projeto de lei foi incluído no discurso dos partidos Conservador, Trabalhista e Liberal Democrata. Até o mês passado, não se tocou em regulamentação da imprensa. Mas um grupo frustrado com a ineficiência do relatório Leveson entre os partidos políticos obteve vitória esmagadora no parlamento e adicionou cláusulas ao projeto de lei que podem encobertar as atividades investigativas dos jornais.

A escritora Gillian Slovo, filha do líder anti-apartheid Joe Slovo, contou ao The Guardian: “seria terrível se essa lei terminar abafada, o que não significa falta de apoio dos três partidos, por que eles estão apoiando, mas um prejuízo enorme causado pelas contradições do relatório Leveson. Seria uma grande perda”.

Ela disse que “uma das grandes forças da Inglaterra sempre foi a liberdade de expressão, mas as leis de imprensa se tornaram o calcanhar de Aquiles já que na maioria das vezes são utilizadas para silenciar os menos favorecidos”.

Defensores da Campanha para Reforma das Leis de Imprensa, que incluem o Lord Lester, acreditam ser possível salvá-la mas isso tem que cair no interesse público até o meio de março. Fontes políticas confirmam que não há crítica quanto à discussão, e que assim continuará enquanto Leveson não parar de falar e aumentar o receio de que o projeto de lei já esteja morto.

Boyd, vice-presidente da English Pen, disse que as emendas de Puttnam não tem “nada haver com o princípio das reformas, cuja validade já foi estabelecida” através de debates e consultas diretas em três comitês do parlamento.

As emendas de Puttnam incluem propostas para a criação de uma agência reguladora que seria responsável em resolver conflitos com jornais, além de um sistema de incentivos que leva a adesão obrigatória dos editores – sob o risco de encarar o órgão regulador de imprensa, medidas punitivas e custos de ações na alta corte.

Os escritores lembram que um número significativo de cientistas tiveram que lidar, nos últimos três anos, com “ações judiciais por calúnia simplesmente por denunciar práticas médicas perigosas”. Se o projeto de lei sobre calúnia e difamação virar lei, o risco de ações contra a imprensa cairia devido ao novo direito de defesa. Além disso, grandes corporações tais como as companhias de medicamentos teriam que provar sérios prejuízos financeiros antes de tomarem qualquer atitude.

“Se a lei não for reformulada, intimidações continuarão a reprimir a publicação de estórias de interesse público e, também, que abordam questões como saúde e segurança pública”, disse a carta.

Os demais assinantes do texto são Lisa Appignanesi, Jake Arnott, Amanda Craig, Victoria Glendinning, Mark Haddon, Ronald Harwood, Michael Holroyd, Howard Jacobson, Hisham Matar, Philippe Sands, Will Self, Kamila Shamsie e Raleigh Trevelyan.

O primeiro-ministro disse que apóia o projeto de lei apesar de se sentir intimidado diante as emendas propostas por Puttnam. “O governo está firmemente ao lado dos objetivos originais do projeto de lei. No entanto, o governo não pode apoiar as emendas de Puttnam e nem removê-las uma vez que isso não faz parte do nosso estatuto”, disse o porta-voz de David Cameron.

Já o porta-voz dos Trabalhistas disse: “Nosso partido está comprometido, através de esforços absolutos, com a modernização dessa ultrapassada lei de calúnia e difamação, nós formatamos um conjunto original de propostas que ainda não estão no ponto. Mesmo assim, seria uma ofensa para o governo prevenir o parlamento e dizer como eles devem trabalhar em relação as essas propostas que são muito necessárias para atualizar as nossas leis”.

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Íntegra carta aberta
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Estamos escrevendo essa carta como forma de cobrá-los o comprometimento com a reforma da imprensa e a garantia de que o projeto de lei sobre calúnia e difamação será aprovado.

Nossos três maiores partidos fizeram promessas em seus discursos e reafirmaram o compromisso com a reforma em concordância com a coalizão governista.

Estamos profundamente preocupados que o projeto de lei, que segue sob ameaça permanente, sofra a inclusão de uma nova cláusula apresentada recentemente no legislativo e que introduz elementos sugeridos pelo juiz Leveson. Inserir mais propostas de regulamentação da imprensa no projeto de lei sobre calúnia e difamação não é viável – conforme o próprio relatório Leveson observou, a imprensa não é de sua responsabilidade. Sendo assim, é totalmente inapropriado, e temerário, que a reforma da imprensa seja sacrificada pela ineficiência política em curso. O projeto pode significar uma oportunidade que não se deve desperdiçar.

Esse é um projeto popular que tem o suporte de cientistas, grupos de consumidores, juristas, especialistas, escritores, jornalistas e blogueiros – mais de 60 mil assinaturas foram recolhidas para a petição na Campanha pela Reforma das Leis de Imprensa. Esse raro consenso em toda a sociedade cresce a partir da consciência de que as leis de imprensa da Inglaterra e do País de Gales podem esfriar o discurso daqueles que têm coragem de falar sobre assuntos de interesse público.

Desde que a campanha pela reforma da imprensa começou há três anos, vocês devem estar cientes de casos como o dos cientistas que tiveram que encarar ações judiciais por calúnia simplesmente por denunciar práticas médicas perigosas, e dos jornalistas cujas investigações não puderam ser publicadas no Reino Unido por receio de ações nos tribunais, mediante cartas ameaçadoras de advogados reclamando a exposição de tais práticas ruins. Se a lei não for reformulada, intimidações continuarão a reprimir a publicação de estórias de interesse público e, também, que abordam questões como saúde e segurança pública.

Nossas leis de imprensa não são apenas uma vergonha para o país, mas um assunto de âmbito internacional. A comissão de direitos humanos da ONU referiu-se ao Reino Unido no que diz respeito ao impacto da imprensa na liberdade de expressão; os EUA mudaram a legislação para proteger seus cidadãos dos nossos tribunais de imprensa.

O projeto de lei sobre a calúnia e difamação promete colocar as nossas leis de acordo com o Século XXI, ao proporcionar proteção efetiva para a publicação online e permitir que as corporações parem com suas intimidações silenciosas, ao dar fim a uma reivindicação ridícula e insignificante e introduzir uma segurança de interesse público de longa data.

Esse é um momento histórico na liberdade de expressão neste país. Como escritores e membros do English Pen, pedimos-lhes que honrem as promessas e garantam que o projeto de lei seja completamente aprovado até o final da sessão do parlamento.

Lisa Appignanesi, Jake Arnott, Julian Barnes, William Boyd, Amanda Craig, Margaret Drabble, Antonia Fraser, Michael Frayn, Stephen Fry, Victoria Glendinning, Mark Haddon, David Hare, Ronald Harwood, Michael Holroyd, Howard Jacobson, Hisham Matar, Ian McEwan, Susie Orbach, Salman Rushdie, Philippe Sands, Will Self, Kamila Shamsie, Gillian Slovo, Ali Smith, Tom Stoppard, Claire Tomalin, Raleigh Trevelyan.

Fonte: The Guardian
Leia mais: Carta Capital

* Jornalistas brasileiros, guardadas as devidas proporções, é bom ficar de olho na PEC 37

segunda-feira, março 11, 2013

Meu querido roteiro


Publicado originalmente em 1982, Sonhos de Bunker Hill – John Fante (1909-1983) – conta a história de Arturo Bandini, escritor que deixa o interior dos EUA e vai para Califórnia tentar o sucesso em Hollywood. Durante a empreitada de ajudante de garçom, ele é descoberto, vai trabalhar como roteirista e tenta emplacar o roteiro de Sin City (Cidade do Pecado), aquela que seria sua obra-prima para o cinema. Os contratempos se sucedem, mas finalmente Bandini é contratado por um grande produtor, que coloca a bela Velda van der Zee para ajudar na edição do script. O roteirista enlouquece ao ler a colaboração de Velda, que preservou apenas o título. O resultado final (abaixo) é uma aula de roteiro, referência a ser seguida por quem pretende escrever roteiros comerciais ou a ser negada por aqueles que, a exemplo de Bandini, prezam criatividade ao contar uma história.

“Uma diligência roda através da planície de Wyoming perseguida por uma bando de índios. Diligência é forçada a parar. Índios apinham-se sobre ela. Dois passageiros: reverendo Ezra Drew e filha Priscilla. Chefe índio arrasta Priscilla para fora, joga-a em seu cavalo. Priscilla luta. Chefe monta, cavalga embora com ela. Índios vão atrás.

No tempo das diligências (John Ford/1933)

Aldeia indígena. Chefe chega com Priscilla, empurra-a para dentro da tenda, então entra. Chefe índio é Magua, inimigo do homem branco. Ele prende garota, apalpa-a rudemente, beijando-a enquanto ela se debate.

Pela colina vem pelotão liderado por xerife Lawson. Ele desmonta, ouve grito da garota, entra na tenda, luta com Magua, derruba-o, ajuda a garota a sair, coloca-a na sela de seu cavalo, monta e vai embora. Pelotão vai atrás.

Sin City. Pelotão chega, xerife tira Priscilla do cavalo. Pelotão traz o reverendo Drew. Priscilla corre para os braços dele. Habitantes da cidade se reúnem. Xerife Lawson leva Priscilla para o Sin City Hotel.

Naquela noite, povo da cidade se reúne no hotel. Xerife aparece com Priscilla e reverendo Drew. Povo da cidade implora a eles para que fiquem. Igreja local incendiada recentemente por índios hostis do chefe Magua. Pessoas exortam reverendo Drew a reconstituir a igreja. Ele promete a pensar no caso. Tocando banjo, reverendo Drew acompanha filha na canção I Love You, Jesus. Muitos aplausos. Segurando pandeiro, Priscilla circula entre povo da cidade, e eles jogam moedas dentro do pandeiro. Reverendo Drew sobe na varanda do hotel e profere discurso. Ele e filha prometem permanecer e reconstruir igreja de Sin City. Cidadãos se dirigem para um grande saloon. Mais uma vez reverendo Drew dedilha banjo, e Priscilla canta Lord Welcome Me. Ela passa pandeiro de novo e obtém generoso donativo.

Igreja sendo reconstruída. Povo da cidade ajuda, carregando madeira e construindo. Xerife chega a cavalo e coloca Priscilla em sua charrete. Eles saem. Em adorável bosque de pinheiros, xerife abraça Priscilla, e eles se beijam. Noite. Saloon de Sin City. Priscilla canta The Lord Is My Sheperd, enquanto clientes do saloon ouvem e admiram a adorável garota. Ela passa pandeiro. Um bêbedo do balcão a agarra, tenta beijá-la. Xerife Lawson intervém, segue-se luta. Lawson derrota intrometido. Priscilla olha xerife agradecidamente.

Na encosta com vista para a cidade, o sinistro Magua está sentado em seu cavalo, observando. Ele desmonta e chega furtivamente à janela do saloon enquanto Priscilla faz um pequeno discurso para clientes do bar. Ela quer que o povo da cidade forme um coro de igreja para que se possa cantar hinos e fazer oferendas para nova igreja. Povo da cidade concorda e aplaude. Do lado de fora da janela, o malvado Magua dá um risinho enquanto escuta.

Sucedem-se mudanças em Sin City. Nada mais de álcool no saloon da cidade. Nada mais de jogo. Sob direção de Priscilla, grupo de mulheres canta hinos edificantes. Prossegue trabalho na igreja. Chega dia em que igreja está pronta, e povo da cidade se reúne para primeiro serviço. Assistindo do alto, Magua observa os acontecimentos lá embaixo e vai embora cavalgando.

Noite. Mulheres de Sin City preparam churrasco do lado de fora da igreja. Uma dança da quadrilha em andamento, liderada por reverendo Drew e seu banjo. Priscilla rodopia com a música, seu par é o xerife. Enquanto isso, na aldeia indígena, Magua reúne suas forças. Índios com corpos pintados montam seus cavalos, e Magua os conduz.

Dança da quadrilha. Xerife leva Priscilla para a mata. Ela ergue o rosto para o beijo dele. Ele a pede em casamento. Ela aceita. De repente, o som de galope e gritos de índios. Magua e seus araphoes sedentos de sangue descem a colina. Cavalgando furiosamente, cercam a igreja e povo da cidade com gritos de gelar o sangue e galopar trovejante. Aos gritos, povo da cidade bate em retirada para dentro da igreja, enquanto índios continuam em círculo e disparam seus rifles. Xerife e Priscilla correm para segurança da igreja nova. Dando voltas sem parar, índios fecham o cerco em torno da igreja. Tiroteio. Grito dos feridos. Índios arremessam tochas no telhado da igreja. Povo da cidade monta posições de tiro nas janelas da igreja. Batalha furiosa. Mulheres recarregam rifles. Priscilla recarrega rifle de seu pai. Naquele momento ele é baleado. Priscilla atira no índio que atingiu seu pai. Então ela se vira, pega em seus braços o pai tombado e chora.

Enquanto isso, o traiçoeiro Magua desmontou e vem deslizando na direção da porta da igreja. Ele entra sem ser visto e se atira sobre Priscilla, coloca as mãos sobre sua boca e a arrasta para fora. Jogando-a sobre o lombo de seu cavalo, ele monta atrás dela e vai embora cavalgando no momento em que xerife Lawson aparece no vão da porta. Fazendo pontaria certeira, Magua dispara rifle contra xerife, e bala o atinge no ombro. Lawson vacila, mas não cai. Em vez disso, cambaleia em direção de Magua, que cavalga com Priscilla se debatendo.

Ferido, mas destemido, xerife vai às cegas até seu cavalo, monta e cavalga em perseguição. Pela colina e várzea ele seue índio em fuga e garota. Eles chegam a um riacho na colina e param. Sangrando e fraco, Lawson se aproxima a cavalo, então cai no chão. Ansiosamente, Magua desmonta com machadinha ameaçadora. Batalha feroz, homens rolando e se engalfinhando, Priscilla assistindo horrorizada. Eles caem dentro do riacho. Magua pula em cima do xerife enfraquecido, tentando afogá-lo, mas xerife se liberta.

Fraco demais para resistir por mais tempo, xerife tomba dentro da d'água. Com grito de triunfo, Magua ergue a machadinha para golpeá-lo. De repente, o estampido de um rifle quebra o silêncio. Magua cai dentro d'água. Priscilla, com rifle fumegante nas mãos, desmonta e corre para xerife. Ela o arrasta para fora do riacho. Enfraquecido, mas audaz, xerife joga braços em volta dela. Eles se levantam e se afastam cambaleantes. Magua jaz morto n'água.

De volta a Sin City, prossegue cerca à igreja. Brancos lentamente assumem controle. Lançam contra-ataque. Combate corpo a corpo. Muitos índios batem em retirada. Outros são capturados por povo da cidade. Uma dúzia de selvagens é levada para a cadeia da cidade. Priscilla e xerife Lawson surgem ao longe. Preso em volta do cavalo deles está corpo de Magua. Grande saudação do povo da cidade. Priscilla corre para os braços do pai.

Epílogo. Radiante manhã de domingo. Cantoria vinda igreja. Dentro, Priscilla lidera coro em Oh Gentle Jesus. Igreja lotada com povo da cidade escutando em reverência. Nos bancos de trás, separada dos demais, uma dúzia de índios capturados, penitentes, com cabeças abaixadas. Xerife vai para o lado de Priscilla. Ela olha para cima em adoração. Fade out.”

John Fante
Tradução: Lúcia Brito
Coleção L&PM Pocket
Ref. 317
168 páginas
ISBN 85.254.1260-0
R$ 15,00

terça-feira, março 05, 2013

Inci Aral: O futuro do romance


Apesar da pressão social e comercial, a procura por bons romances não diminuiu*

Autor: Inci Aral**

O mundo literário parece conviver com o receio contínuo em relação ao futuro do romance – uma questão que, se está morta ou não, ainda continua causando barulho regularmente. O romance, tal como o conhecemos hoje, surgiu com a publicação de Dom Quixote, de Cervantes, e atingiu o auge nos séculos 18 e 19. As primeiras inquietações a respeito do “futuro” surgiram nas eras de Flaubert, Stendhal e Austen, e já previam o tal fim. Não faltou quem esperasse literalmente o anúncio do funeral, mas o romance, não todos, é claro, resistiu e continua resistindo até hoje. E vive bem, em alta, forte e tão fértil como nunca.


Facsímile da primeira edição de Dom Quixote (Domínio Público-Wikimedia)

O romance representa a arte de explorar a vida humana. Reflete a natureza do Homem, a alma das sociedades e o espírito de vida das cidades. Os grandes romancistas criam obras que não são pertinentes apenas aos seus próprios países, conforme a linguagem por atacado da história, mas trabalhos de importância global que apresentam outros pontos de vistas que não os estabelecidos, onde são empregados os mais elevados princípios para se escrever discursos épicos sobre os períodos mais tumultuados da humanidade.

É triste para um amante da ficção imaginar a morte do romance ou, necessariamente, o seu próprio fim. Felizmente, não há motivos para isso. Desde que o mundo progride em passos largos a partir da era industrial, o romance tem sido conduzido firmemente para acompanhar as ordens do dia. Se tal forma de arte tão influente tivesse que se apagar nós também teríamos que abandonar as esperanças com relação a outras belezas e tesouros da criação humana.

Cada vez se fala mais do futuro do romance do que do romance em si. Será que isso acontece porque agora existe mais liberdade do que no passado? Hoje em dia, tudo é possível. Além dos estilos e das próprias narrativas, o romance não tem limites e, por isso, nunca cessou de procurar por novidades. E se deve ser encontrado no meio digital novos campos para a sua existência, então isso acontecerá em paralelo com a versão impressa, o que permitirá ao romance evoluir para algo novo e completamente diferente.

A maioria dos leitores atuais está em frente da tela. Nos países desenvolvidos menos da metade dos adultos lêem romances, e o número de leitores, especialmente entre os mais jovens, está em ligeira queda. O computador é usado para tudo, entretenimento, estudo, leitura, compras até como forma de se expressar individualmente, e assim tornou-se parte fundamental da vida diária das pessoas. Entretanto, o fato de que os leitores encontram cada vez mais o que precisam na frente das telas não significa que eles vão parar de ler. A queda no número de leitores deve ser atribuída à batalha do papel versus o digital e à conveniência da situação. Ao mesmo tempo em que a leitura digital vem se difundindo, o romance pode emergir vitorioso desse processo.

Na Turquia, são publicados em média 500 romances todos os anos, sendo que a maior parte deles são inéditos. Em 2012, esse número saltou para exatamente 780. As livrarias na Turquia estão lotadas de belos livros e de jovens ávidos por leitura. Na internet encontra-se uma grande quantidade de livros, revistas literárias, websites e fóruns com debates intensos sobre literatura. Em resumo, o interesse por romances permanece expressivo. Mesmo que em um futuro próximo a tecnologia continue a desenvolver e se inventar ainda assim os romances serão escritos utilizando-se de atrativos e apelos que nós não poderíamos nem imaginar.

Seria o romancista digital do futuro alguém dotado de malandragem, consideravelmente emotivo ou um insensível quebrador de regras? Eu não sei. Meu receio é que a intensidade e o conteúdo sofram em nome da técnica e que a alma dos romances se perca. Desde que a tecnologia tornou nossa vida mais dinâmica, o mundo digital tem sido o símbolo da inteligência. Isso mudou a nossa maneira de ver, sentir e pensar. O mundo sobre o brilho da técnica esteriliza todo tipo de processo imaginativo e paralisa a nossa própria voz. Além do mais, isso brinca com os nossos desejos. O resultado final é que o romance, queiram ou não, será forçado a entrar cada vez mais em um contexto limitado. De resto, a internet ainda não desenvolveu uma linguagem distinta o bastante no que diz respeito à arte de escrever um romance, apesar de que esse ponto é altamente possível de ser atingido em pouco tempo.

Na minha opinião, um dos problemas que ameaçam o futuro do romance é a uniformidade imposta pelas condições de mercado. Editores, de olho nas vendas, arriscam suas fichas em romancistas promissores inclinados a escrever sobre literatura barata que aborda espiritualidade, sexo ou assuntos banais do momento. São escritores incentivados a trabalhar gêneros fúteis, como o misticismo, e a transformar o romance em uma sensação do momento. Esses livros “fast-food” vendem milhões no mundo todo, quando milhares de romances de alta qualidade são relegados ao pó nas prateleiras.

Não resta dúvida de que nunca foi fácil dividir a linha entre o bom e o ruim. Os leitores escolhem um romance de acordo com o seu perfil. De qualquer modo, a publicidade agressiva e a pressão da cultura popular de massa têm sido determinante na escolha do leitor. O escritor que se adequa ao mercado pode se tornar bem sucedido embora não consiga impedir que o seu trabalho seja explorado e pirateado na internet. A luta contra a pirataria na Turquia não tem avançado muito. Aqui esse não é um assunto exclusivo às grandes cidades, livros impressos ilegalmente são vendidos abertamente nas livrarias de Anatolia e romances são baixados sem qualquer permissão.

Durante o encontro Edinburgh World Writers', o escritor China Miéville sugeriu que, afim de garantir a integridade do Estado, fosse destinado salário aos escritores. Para nós, isso parece piada. Enquanto ainda existir em nosso país a mentalidade de censurar escritores, de atirá-los na prisão, de abrir casos judiciais contra a organização PEN e de considerar perigosos clássicos como Ratos e Homens, de Steinbeck, será impossível aos romancistas viver dentro de um estado que deveria proteger e lutar pelos seus direitos.

Apesar de tudo, o romance e a psicologia individual continuam muito importantes. Escritores consagrados ainda são premiados e respeitados. Existe também grande procura por cursos e oficinas de escrita criativa. Escrever um romance se tornou o grande sonho para algumas pessoas. Estamos cercados de novas surpresas em narrativas, estruturas e linguagens. O mundo do romance é tão fértil e fascinante que se mantém em pé diante o domínio da imagem.

No entanto, a perspectiva para o futuro é nebulosa. O que os seres humanos esperam para o planeta? Como acabar com a crise econômica? Será que uma outra guerra mundial está prestes a ocorrer? Nessas situações o escritor pode se manter retraído no seu próprio mundo, indiferente aos eventos ao seu redor? Seria possível fechar os olhos e se desligar de tudo que estaria acontecendo? A resposta é sim e não. E nesse caso, podemos dizer que o espírito político do nosso tempo não se refletiu o bastante nos romances. Quando a indiferença e a recreação são a natureza das notícias, a política é vista com desprezo estimulando uma existência à parte movida por exemplos negativos e obsoletos.

Seja qual for o regime opressivo em questão, nós não podemos endossar a censura e a perseguição aos escritores, seja através do exílio ou do atentado contra suas vidas transformando-a em uma existência silenciosa. Para garantir que haja livre expressão, nós devemos sentir total desprezo pelas proibições e restrições impostas aos escritores.

A literatura e o romance estão sobre o controle de várias pressões discretas; certos assuntos são boicotados e transformados em uma cópia do aceitável pela mídia antes de serem publicados. É muito bom que escritores notáveis no mundo todo, de todas as idades, não cedam sutilmente à atual exposição e que continuem questionando com habilidade todo novo plano falso para a nossa felicidade.

Os próximos anos certamente nos dirá, com maior clareza, de que maneira o que nós estamos plantando atualmente irá afetar na prática escritores e romances. Qual o rumo que as coisas vão tomar, qual será a melhor dinâmica e de onde os assuntos vão surgir?

Quanto o marketing, que tanto afeta adversamente a inspiração, visão e processo criativo dos escritores, influenciará para baixar o nível das obras? A fim de proteger esse espírito e essa paixão, e reconquistar a herança perdida no romance atual, será preciso compreender a vida em todos os seus aspectos, e conhecer todos os símbolos e sentimentos de dor ao longo dos tempos. Por outro lado, assim como a queda espiral da humanidade segue desenfreada, o romance também pode estar nos últimos suspiros.

* Esta é uma versão editada da palestra de Inci Aral na Edinburgh World Writers' Conference, em Izmir, na Turquia, e foi traduzida para o inglês por Caroline Stockford, e apresentada na Yasar University e na British Council. A versão completa de todos as palestras estão disponíveis na página da Edinburgh World Writers' Conference.

** A escritora Inci Aral nasceu em 1944, na Turquia. Publicou quase 20 livros entre ensaios, romances e contos.

Fonte: The Guardian

sábado, março 02, 2013

Briga judicial


Notícia-Crônica

Feliciano José Nascimento está sendo processado, pode pegar dez anos de prisão e pagar multa de dezoito salários mínimos se condenado. Acusação: o próprio nome. Intimação: plágio. Autor da denúncia: outros noventa homônimos. Isso mesmo, noventa Feliciano José Nascimento.

“Eu e minha família estávamos em casa, toca a campainha, era o oficial de Justiça”, contou, aos prantos, o réu. Segundo ele, o caso foi ledo engano e está relacionado ao trigésimo segundo Feliciano. “Meu cliente não cometeu delito. O tal Feliciano que pague”, retrucou o advogado, que não quis ser identificado, do outro Feliciano, o trigésimo segundo.

O defensor do atual Feliciano processado já deu entrada no processo contra os outros noventa homônimos. A principal reivindicação, além de indenização por danos morais, é o domínio felicianojosenascimento.com e a posse do felicianojosenascimento no Facebook. “Nenhum Feliciano gosta de ser chamado FelicianoJose29”, disse o advogado de Feliciano.

Às partes envolvidas, cabe recurso.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Olha o livro aí, dona Maria!

Fonte: Fundação Biblioteca Nacional

O Rio Grande Sul detém mais da metade dos eventos literários realizados no Brasil, de acordo com o Circuito Nacional de Feiras de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional. O Estado sulista concentra 57% dos festivais - a região Sul 62% no total. São Paulo está em segundo lugar com 7% dos eventos. Enquanto a região Sudeste concentra 17% das feiras, o Nordeste segue com 13%. Atualmente, o Centro-Oeste é a região com menor índice de eventos literários, apenas 2%. Ao todo, mais de 200 festivais integram o calendário nacional - no que diz respeito aos eventos com apoio da FBN. Segundo a entidade, as feiras reúnem cerca de 10 milhões de leitores a cada ano. Ontem (26/2), o Projeto Caravana de Escritores da FBN-MinC deu início ao 1° Circuito Pré-Feira de Livros do Amapá 2013.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Achados e perdidos


Durante reformas realizadas na casa do poeta Rudyard Kipling, em Manhattan, foram descobertos cerca de 50 poemas desconhecidos e não publicados do autor. O caderno de literatura do jornal britânico The Guardian trouxe matéria sobre a recente publicação do material perdido, assim como o poema "The Press". Abaixo, uma humilde livre-tradução:

A Mídia

Porque não escreves uma coluna -
 Ou não cortas o cabelo?
Arredondas a encravada unha
 Ou a deixas quadrada no dedo?
Coloque isso no papel,
 Uma coluna diária e matinal.
Por isso, en passant, não cesso minha dúvida
 Porque não escreves uma coluna?

Qual foi sua última religião?
 Será que acreditas em algo?
Vestindo-se com um autêntico Jaeger-wool
 Colorido, tweed ou listrado?
Quais os livros te ajudaram na pior
 Ao longo dos caminhos teus
Ou costumas utilizar o "d" menor
 Sempre que escreves Deus?

Tens a esperança de ingressar
 Na cúpula dos imortais da fama?
A própria roupa cuidas de lavar
 Ou levas tudo pra casa da mama?
Tens ainda alguma moral?
 Seu caráter estás a arder?
Qual era mesmo o nome da tua esposa?
 Quanto ela fez por merecer?

Amigo, eu tive segredos
 Vergonha, sofrimento e defeitos -
Prometa que não contas a ninguém
 Qual seria o teu menor preço?
Toda doméstica desprezo
 Todo mordomo conjetura
Conte isso aos teus leitores
 E nós cuidaremos do resto.

Porque não escreves uma coluna?

[Setembro 1899]

Fonte: The Guardian

Entrevista: editora da Granta Noruega



Autor: Ted Hodgkinson

O último 31 de janeiro foi marcado pelo lançamento da Granta Noruega, publicada pela Gyldendal. O primeiro número, cujo tema é Tragédias, traz não só os escritores noruegueses como também os colaboradores da última edição em inglês – que inclui nomes como Alice Munro, Roberto Bolaño e Jennifer Egan. Em meio ao número crescente de versões internacionais, a editora norueguesa de novidades da Granta, Trude Rønnestad, falou ao editor online Ted Hodgkinson sobre a satisfação de selecionar o tema e como ela conheceu a revista.

TH: Dar espaço às variadas vozes e estilos da literatura norueguesa esteve entre as suas preocupações enquanto selecionava os escritores para compor esse primeiro número da Granta?

TR: Sim, até certo ponto tentei fazer um número que gira bastante em torno da imagem da literatura norueguesa. Aqui, é considerável a variedade em termos de gerações e níveis de experiência – mas também de pontos de vista, formas, estilos e gêneros. Na Noruega, existem muitos bons escritores de não-ficção também – e que, na minha opinião, não poderiam ser esquecidos. Com certeza, esses escritores que falam da Noruega contemporânea não estão representados neste primeiro número da Granta. Tive que selecionar trabalhos com uma linguagem mais abrangente – onde a narrativa é o principal: e curta, como são os textos da Granta.

É mais fácil distinguir os escritores dessa edição pelos conceitos em comum que são compartilhados ou por suas diferenças?

Suspeito que eu não seja a melhor pessoa para responder essa pergunta, o leitor estrangeiro provavelmente irá reconhecer muito bem esses traços que as histórias norueguesas têm em comum; embora, para mim, elas sejam completamente distintas. O humor é diferente, assim como as experiências e os projetos literários. Entretanto, eu tenho certeza de que alguém pode perceber, ou esboçar, alguma coisa particular da identidade norueguesa em diversos textos, ainda que os temas trabalhados sejam universais. Além do mais, as características físicas dos personagens são particularmente norueguesas, sejam eles das grandes cidades, do litoral ou do interior.

O tema "Tragédia" parece se encaixar muito bem com a atual situação mundial; como você chegou a esse tema e houve alguma surpresa na abordagem feita por algum dos escritores?

Nós levantamos diversas ideias para o tema, mas a que realmente nos contagiou foi "Tragédia". Não só porque estamos vivendo a era das Falências (ou pelo menos a que deveria ser), seja ela política, ecológica ou financeira – mas também porque a experiência do 22 de julho de 2011 está bastante presente em nossas mentes. Aquilo é um tipo de acontecimento que abalou não só a Noruega, mas outras partes do mundo. Isso por si só é um tema literário que pode ser abordado de vários ângulos, desde o material de caráter intensamente particular até o claramente político. Vários colaboradores noruegueses escreveram muito sobre o aspecto pessoal dos colapsos – o choque da morte, a ruína desesperadora das famílias. Talvez esses reflexos tenham sido – até aqui – encobertos pelas mais prosaicas formas de falência, tais como as crises financeiras dos últimos anos.

Dos diversos nomes que poderiam ser familiares aos leitores de língua inglesa, mas que não são por falta de traduções, você gostaria de citar algum?

Considero difícil, devo dizer, destacar um único nesta edição. É uma lista grande e reúne diversas vozes literárias importantes. Tenho que ressaltar que fizemos questão de traduzir todos os textos do Norueguês para o Inglês. Acreditamos que o mérito de qualidade dos textos está aí – quando o escritor é digno de ser lido em outra língua.

Você poderia nos contar qual seria o próximo tema?

Trabalho. É um tema que já foi utilizado na edição inglesa, mas nós o consideramos muito bom – além de muito importante – para abordar. Seria uma pequena ênfase do trabalho na literatura atual.

Você se lembra qual foi a primeira vez que leu a Granta?

Lembro como se fosse hoje. Foi um número de 1983, Bill Buford’s A Literature for Politics. Eu tinha apenas sete anos, portanto não poderia ler aquela publicação! Mas anos depois eu encontraria a revista em um sebo – e isso se tornaria uma lembrança inesquecível.

Fonte: Granta.com