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segunda-feira, junho 03, 2013

O futuro é da carne falsa

Autor: Daniela Hernandez
Fonte: Wired

Sneak de frango falso (Foto: http://www.quarrygirl.com)

Pensando em mandar um suculento x-burger duplo? Você não está sozinho.

“Existe uma relação de amor com a cultura da carne”, disse Ethan Brown, CEO da start-up produtora de carne alternativa Beyond Meat, algo como “Além da Carne”, na 5ª Conferência de Negócios da Wired, em Nova Iorque.

Brown participou do evento e esclareceu algumas questões sobre o tema.

A Beyond Meat, com sede em Maryland, é voltada para o mercado de carne sintética e tem como carro-chefe as tiras de frango falso. No entanto, o público da empresa não são necessariamente vegans e vegetarianos*, mas sim os flexs, uma nova espécie de carnívoros ambientalmente conscientes que se satisfazem degustando tanto um tofu quanto uma costela de porco. Segundo Brown, os flexs somam cerca de 90 milhões de pessoas nos EUA, e muitos deles estão se despedindo da carne. Se depender de Brown, mais gente vai entrar para a turma.

Essa estratégia inclusiva faz da Beyond Meat uma empresa diferenciada em relação às outras que atuam no mercado de carne alternativa. Eles não querem trabalhar com um produto especializado. Almejam ser a Tyson ou a Perdue** dos produtos de carne à base de vegetais, e fazer algo tão popular quanto o bife frito, o frango assado e o churrasco de picanha.

Tendo em vista movimentos como o Meatless Monday, ou a Segunda Sem Carne, que ganham popularidade em toda a América, Brown considera que em pouco tempo o Silicon Valley deve começar a investir em companhias de alimentação. A Beyond Meat também está atuando pesado nas redes sociais, divulgando seus conceitos além dos tradicionais consumidores que não comem carne. De fato, a empresa possui mais seguidores no Twitter do que marcas antigas e mais conhecidas como a Tofurky.

Por enquanto, a Beyond Meat, que recebeu aportes do fundo de investimentos Obvious Corporation, dos co-fundadores do Twitter Biz Stone e Evan Willians, trabalha apenas com carne de frango, mas planeja expandir em breve os negócios para a carne bovina.

Ao tentar colocar seu produto entre a carne bovina, suína, de peixe e aves, tornando-o um alimento básico como qualquer outro, Ethan Brown se posiciona à frente da revolução da carne falsa. Essa proposta, acredita ele, pode mudar o jeito como as pessoas pensam a respeito dos substitutos da carne. Atualmente, os Tofurkies e Boca Burgers da vida estão relegados às sessões vegan ou vegetarianas dos supermercados, o que Brown chama de banco de reservas. Ou seja, os produtos não estão ao lado das carnes que eles supostamente iriam substituir. Este é o problema, no que outros especialistas concordam.

“Uma nova opção de alimento só é alternativa de verdade se estiver lado a lado dos produtos tradicionais”, disse Isha Datar, diretora da New Harvest, uma organização sem fins lucrativos que defende o consumo de fontes alternativas de proteína. “A não ser que você seja vegan, não se sabe onde esses produtos estão nas lojas. Na minha opinião, isso não é uma alternativa real”.

Ajudar as pessoas a mudar seus hábitos alimentares pode ser crucial, uma vez que alguns estudos indicam que a maneira de se produzir e consumir carne não é nenhum pouco sustentável.

“O setor de transporte contribui com 18% das emissões dos gases que causam o efeito estufa. Já a pecuária, de acordo com as estimativas, contribui com 51%”, disse Ethan Brown durante a conferência. É esse cenário que o inspira a engatar a primeira marcha na área de proteínas e acelerar em direção à comida.

A carne falsa de frango, que agora é vendida em lojas especializadas, é resultado do trabalho árduo de Fu-hung Hsieh e Harold Huff, dois cientistas da Universidade do Missouri, em Columbia, que há 15 anos se dedicam ao projeto (tecnologia cuja patente a Beyond Meat é detentora exclusiva). Hsieh e Huff passaram anos aprimorando a maneira de se resfriar, aquecer e pressionar a mistura de proteína de soja, através de uma extrusora, até chegar na aparência e textura mais semelhante possível de uma tira de frango natural.

Segundo Huff, um dos criadores da carne falsa de frango, uma das primeiras coisas que as pessoas avaliam em um alimento é a aparência e, depois, a textura. Em terceiro ou quarto lugar, está o sabor. E tem mais. “As pessoas não querem comer um frango e sentir outro sabor que não seja de tudo aquilo que foi utilizado no preparo, desde os condimentos até os temperos. Ninguém quer saber do gosto da carne de frango em si. E uma das vantagens desse produto é que vai bem em qualquer época do ano”, disse Huff.

O cientista informou que continuará trabalhando com a Beyond Meat para desenvolver novas alternativas à carne de frango, bem como para ajudar Brown a alcançar o seu objetivo de expansão da proteína vegetal. Brown quer ver a proteína animal seguir o mesmo caminho das carruagens após o advento do automóvel. “Por ventura, foi necessário se desvencilhar dos cavalos”, concluiu.

* Veganismo é um estilo de vida em respeito aos animais e que, portanto, evita o consumo e o uso de qualquer produto de origem animal (Fonte: veganismo.org.br). O Vegetarianismo tem a mesma filosofia alimentar, mas no cotidiano utilizam alguns produtos de origem animal (Fonte: centrovegetariano.org).

** Redes norte-americanas de produção e venda de carne de frango a exemplo da Seara e da Sadia, mas como lojas exclusivas no varejo.

segunda-feira, maio 27, 2013

As epifanias de Chris Anderson

O empreendedor e especialista em tecnologia fala sobre drones, vigilância e o que está por vir

Autor: Benjamin Pauker

Chris Anderson durante palestra em San Diego, 
na Califórnia (James Duncan Davidson/Wikimedia)

Chris Anderson já foi chamado de diversas coisas: visionário, pioneiro da economia na internet e evangelizador do ideal Do it Yourself 2.0 (Faça você mesmo). Contudo, não seria imprudente compará-lo a um cata-vento: ou seja, ele não pode controlar as correntes de ar, mas certamente é o primeiro a indicar qual a direção do vento. Físico, com especialização em mecânica quântica, foi Anderson que trouxe as curiosidades científicas para dentro da revista Wired. Durante seus 12 anos como editor, a publicação fez ciência e tecnologia parecer algo legal para os leitores. Nesse período, escreveu a trilogia das grandes ideias do Vale do Silício, na Califórnia, apresentando teorias como a “Calda Longa”, ou a venda online de qualquer coisa, e o conceito de gratuidade como um bom negócio. Seu último manifesto é “Makers: The New Industrial Revolution”, algo como “Fabricantes: a Nova Revolução Industrial”, onde ele conta estar investindo o seu dinheiro na 3D Robotics, uma empresa faça-você-mesmo que fabrica drones e enxerga oportunidade em qualquer parte do mundo. Depois disso, Anderson deixou de ser cata-vento. Está buscando os céus.

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As novas tecnologias, da viagem espacial à internet, sempre começam com custos muito altos e nas mãos dos militares. Depois, com a expansão em escala, a Lei de Moore* funciona como num passe de mágica. É quando as novas tecnologias atingem o consumidor em geral e é nessa hora que palavras como “personalização” entram em cena. Nesse ponto, não há espaço para apostas. Com os drones, estamos exatamente nesse estágio. Nós estamos começando notar alguns efeitos tais como os que surgiram com o advento do computador pessoal e da internet. A minha esperança é que as pessoas algum dia esqueçam que os drones começaram como uma tecnologia militar.

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E se, a cada manhã, um drone pudesse decolar e fazer a pulverização da lavoura. Ali mesmo no café da manhã, você poderia ter um relatório diário, independente do tipo de plantação que você tenha: tomates, trigo, uvas, entre outras. É possível saber se há um surto de pragas, de fungos ou doenças. Esse tipo de informação é de grande valor para fazendeiros por que isso pode significar uma boa economia. Além de contribuir também para o meio ambiente porque os fazendeiros usarão menos produtos químicos e menos água. Não podemos nos esquecer que temos um grande problema com a indústria mundial do agronegócio que, de acordo com a minha epifania, poderia ser resolvido com câmeras no céu.

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Câmeras estão espalhadas por toda parte, em qualquer lugar da nossa vida. E, é claro, isso gera preocupação em relação à privacidade. No entanto, a nossa percepção no que diz respeito à privacidade que nós temos e aquela que nós imaginamos é bem diferente. Nos Estados Unidos, a regulamentação desse tema é baseada no que nós chamamos de “Expectativa Razoável de Privacidade”, e que abrange o nível distrital. Sendo assim, diferentes bairros têm diferentes expectativas razoáveis de privacidade e que podem mudar a qualquer momento. É aquela velha história: eu tenho uma expectativa, meus filhos outra.

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É difícil ignorar o fato de que estamos vivendo um período de exponencial inovação tecnológica. Os drones personalizados são basicamente os dividendos da paz contra a guerra dos smartphones, no que diz respeito aos componentes de um aparelho – sensores, GPS, câmera, processadores, wireless, memória, bateria – enfim, todas aquelas coisas que são produzidas numa escala incrível para atender os últimos lançamentos da Apple, Google, e outros, e que estão disponíveis por uma bagatela. Há 10 anos, eles eram inacessíveis. E, em sua maioria, foram tecnologias desenvolvidas para a indústria militar; hoje, você pode comprar qualquer um desses produtos nas lojas RadioShack. Nunca vi uma evolução tão rápida na tecnologia como a que acontece atualmente. Tudo isso, porque podemos levar um supercomputador no bolso.

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Atualmente, eu não cometo mais o erro de tentar prever o futuro, prefiro sugá-lo. Tenho uma queda por isso – e me perdoem pelo trocadilho semântico aqui –, por desabar com a famosa afirmação de William Gibson que diz “O futuro é agora, e é simplesmente desigual”. Para prever o futuro, você tem que manter seus olhos bem abertos nele.

* Em 1965, o co-fundador da Intel Gordon Moore previu que o número de transistores em um pedaço de silício iria dobrar a cada dois anos, criando a conhecida Lei de Moore (Fonte: HowStuffWorks)

sexta-feira, março 15, 2013

As sacadas medievais para a irracionalidade do Pi


Autor: Samuel Arbesman

É o Pi Day (O Dia do Pi foi comemorado ontem). E para homenagear a data decidi fazer uma breve pesquisa histórica. Apesar de o π – a relação entre o perímetro de uma circunferência e seu diâmetro – ter sido bastante apreciado e calculado na Antiguidade, somente no século 18 provou-se que se tratava de um número irracional. Antes, várias aproximações foram realizadas, sendo que as mais exatas giravam em torno do número 3.

Perímetro da circunferência (Wikimedia/Commons)

Esses dias, naveguei pela página “Aproximações para π”, na Wikipedia, e percebi que havia uma nota dizendo que Maimônides – o físico e sábio judeu que viveu há 1000 anos – parecia ter feito uma alusão ao números irracionais em seus escritos. A fonte me levou ao livro “The Ancient Tradition of Geometric Problems”, utilizei o recurso de visualização da Amazon para acessar o conteúdo e assinalei uma suposta declaração ao comentário de Maimônides no Mishná, um conjunto de leis judaicas que integram o Talmude (quem quiser pesquisar melhor, confira os comentários em Eruvin 1:5).

Consegui localizar o trecho abaixo, cujo conteúdo é muito interessante (está em hebraico, e escrito em uma tipologia conhecida como Rashi script). Incluí por conta própria a livre-tradução, razoavelmente fiel, de alguns pontos de destaque:

Reprodução da revista Wired.com

“A relação entre o perímetro de um diâmetro e o seu espaço não é conhecida. Não podemos precisá-la... Essa relação realmente não pode ser descoberta, a não ser pela aproximação... E podemos identificá-la na aproximação de um para três ou na sétima parte...”

Maimônides fala da aproximação para o π de 22/7, ou seja 3.14, que é uma boa aproximação. Além disso, ele chegou a deduzir que qualquer valor é necessariamente uma aproximação cuja precisão nunca poderia ser conhecida. Poderia-se dizer que essa evidência é real e que talvez esteja relacionada de alguma forma com a irracionalidade do π, poderia-se dizer também que isso não passa de considerações e que Maimônides simplesmente poderia ter pensando que o π era muito difícil de ser calculado. Além do mais, não há dúvida de que a tradução do hebraico (a partir do original em Árabe) para o inglês é ruim, o que gera maior confusão.

Por fim, essa é uma discussão intrigante e que nos deixa emocionados ao pensar que os sábios da Idade Média talvez já soubessem que o π só permitiria ser relativamente calculado.

Feliz Dia do Pi!

O autor agradece ao rabino Daniel Rockoff pela ajuda na tradução do texto. Quem se interessar pela tradução completa do trecho em hebraico, basta contatá-lo.

Fonte: Wired

segunda-feira, março 04, 2013

O ataque dos parasitas manipuladores de cérebros


Autor: Brandon Keim

Infectada, a Lagarta Soberana se dissolve

Até bem pouco tempo pensava-se que os parasitas levavam uma vida relativamente simples e resumida a passear pelo hospedeiro extraindo nutrientes e energia. E pronto. Porém, essa era apenas uma parte da história. Na atualidade, descobriu-se que alguns parasitas – visando atingir os próprios objetivos – assumem o controle total de seus hospedeiros, conduzindo-os a agir em diversos casos de maneira auto-destrutiva.

Tomem como exemplo o parasita da Lymantria dispar que induz a lagarta da mariposa-cigana subir até a copa das árvores e se instalar em alguns pontos dos galhos. No topo, quando não são comidas por pássaros, tais lagartas morrem e entram em decomposição – com a chuva, suas partículas são espalhadas pelas folhas. A partir daí uma nova geração de lagartas se alimenta da folhagem e, novamente, se infecta com o parasita.

“Pelo visto, as pessoas não se interessam por essas questões porque a todo instante nós temos exemplos ao nosso redor de controle no comportamento de doenças”, disse o bioquímico Kelli Hoover, da Universidade da Pensilvânia, que descreveu a sequência do gene da L. dispar em estudo publicado na revista Science, de 9 de setembro de 2011.

Formigas saúvas

Quando o nematelminto Myrmeconema neotropicum infecta as gigantes Cephalotes atracus, o abdômen dessas formigas incha e fica vermelho semelhante à uma amora ou framboesa. Isso acontece nas florestas da América Central e do Sul, e poderia se caracterizar apenas como um acontecimento natural se o lugar não fosse rico, também, em pássaros que adoram frutas vermelhas. Ou seja, uma péssima notícia para as formigas.

Ao se tornarem hospedeiras do parasita, as saúvas vagam pelas árvores inclinando o abdômen para o ar e emitindo vibrações. De tal modo, convida os pássaros à comê-las e, posteriormente, o M. neotropicum a se propagar goela abaixo nas aves.

Formigas zumbis

Quanto ao fungo Ophiocordyceps, este provoca um efeito químico comparado ao LSD em formigas trabalhadoras. Quando infectadas, as mesmas deixam os seus ninhos e procuram aleatoriamente uma folha com 10 polegadas. Ao encontrá-la, as formigas passam a se atacar apenas em um lado da folha. É quando morrem. Depois de um ano, o Ophiocordyceps consome o corpo das formigas e também os utiliza como fonte de alimentação e reprodução.

Steve Yanoviak (University of Arkansas at Little Rock)

Foto: Ophiocordyceps cresce na cabeça de uma formiga morta.

Louva-Deus suicida

Uma vez estabelecido dentro do louva-deus, o verme Spinochordodes tellinii produz químicas que afetam o sistema nervoso central do hospedeiro levando-o a mergulhar na água. É o salto mortal. Depois que o louva-deus pula na piscina, o verme deixa o seu corpo. Dentro da água, o S. Tellinii expelido pode completar seu ciclo de vida. O louva-deus, por sua vez, morre.

Teias para vespas

Vespas são famosas por botar seus ovos em insetos que vivem se alimentando de suas larvas devoradoras. Contudo, as Hymenoepimecis vão ainda mais longe: suas larvas, quando vão matar uma aranha, induzem a hospedeira a produzir um novo tipo de trama na teia. Em vez de confeccionar seu elegante esquema de círculos concêntricos, a aranha entrelaça uma estrutura capaz de suportar o casulo que será construído dentro de algumas horas. Ou melhor, depois que a larva matar e comer a aranha.

Peixe arriscado

Bastante encontrado em córregos e lagos da América do Norte, o Clinostomum marginatum – também conhecido como o verme amarelo – põe seus ovos dentro de pássaros que se alimentam de peixes. Primeiramente, ovos são depositados na água, via fezes. Em seguida, são ingeridos pelos peixes – onde os parasitas se desenvolvem. Quando os vermes habitam o hospedeiro o suficiente, eles fazem com que o peixe alcance diretamente a superfície. Lá, onde se torna muito mais fácil de ser consumido, o peixe (influenciado pelo C. marginatum) dá continuidade ao ciclo.

Gatos que amam ratos

Exemplo raro em mamíferos envolvendo parasitas que controlam hospedeiros, o Toxoplasma gondii é um protozoário que pode viver em qualquer animal de sangue quente, mas que só se reproduz em gatos. Nos ratos, o T. gondii provoca não só a perda dos instintos de medo pelos gatos, como desenvolve também o desejo sexual dos roedores pelos felinos.

Existe a suspeita de que o T. gondii, que altera o comportamento do hospedeiro através da produção de dopamina nos neurotransmissores, está atingindo os seres humanos. Inclusive, cerca de um terço da população mundial pode estar infectada. De acordo com pesquisas, isso poderia aumentar o risco das pessoas desenvolverem doenças como: distúrbios obsessivo-compulsivos e esquizofrenia.

Porém, ainda não foram realizados estudos indicando como as pessoas infectadas por T. gondii respondem a animais como os gatos, por exemplo.

Fonte: Wired.com

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Códigos sociais: compartilhando dados genéticos na web


Autor: Daniela Hernandez

Os genes migraram para os mobiles. Em setembro, a empresa de produtos genômicos 23andMe anunciou a abertura de uma API ainda inédita que permite a interação de aplicativos com as informações de diversos bancos de dados. Desde então, desenvolvedores já enviaram mais de 200 novas apps sobre o tema para a equipe do Google. 

A 23andMe mantém em segredo o nome desses desenvolvedores, mas adianta que todos eles estão trabalhando em sistemas que integram arquivos digitais com dados de saúde e informações genéticas. Além de dar suporte para novos estudos nos grandes centros de pesquisa, a plataforma servirá de base para a construção de aplicativos na área de saúde focados em dieta, nutrição e sono. 

Outro interesse dos desenvolvedores é a criação de sites que hospedem informações genéticas e que disponibilizem mecanismos para a realização de combinações genômicas de acordo com o perfil do usuário, a exemplo dos sites FitBit e Zeo.

De olho nesse mercado, a 23andMe lançou, em junho, uma app gratuita e que permite ao usuário participar de pesquisas, acessar dados genéticos e enviar resultados pessoais por email aos seus contatos. É um aplicativo que funciona como “um sistema de operação do genoma, uma ferramenta que controla a maneira como seu genoma será utilizado online”, disse Mike Polcari, diretor da empresa.

Tais aplicativos se conectam diretamente com o sistema da 23andMe, especialmente aqueles no campo da saúde e que antecipam, via mobile, questões de ordem genética. Através dessas apps, o usuário pode acessar, compartilhar e discutir, suas informações genéticas ou mesmo suas características fenotípicas – como sente, vê, percebe ou define gostos, sabores ou paisagens, por exemplo – em qualquer lugar, a qualquer hora, e em alguns casos, sem estar conectado a um computador.

Por enquanto, tudo isso não passa de uma forma de compartilhar informações diretamente das apps, mas a empresa afirma que “já trabalha na incorporação de diversas outras características sociais nas próximas atualizações”.

Atualmente, qualquer pessoa pode compartilhar seus dados genéticos diretamente com outras interfaces como o banco de dados público de genoma, o openSNP, desde que solicitado a 23andMe o livre acesso ao programa, ou através de aplicativos móveis como o DIYGenomics. No entanto, os dois processos podem ser entediantes: ambos exigem do usuário o upload manual das informações.

Mesmo assim a 23andMe acredita que resultados genômicos são ótimos produtos comerciais. O anúncio da abertura da API, em conjunto com a recente aquisição da CureTogether, uma rede social de apoio onde os usuários podem ranquear mais de 500 situações de tratamento, colocou a empresa em posição de destaque no que diz respeito à monetização e lançamento de tendências nas comunidades online relacionadas ao tema DNA.

No próprio site da 23andMe, é possível  encontrar diversas comunidades com centenas de membros e com discussões avançadas sobre uma variedade de tópicos de saúde.

Usuária do 23andMe, Cynthia Manley diz que concorda com a visão da empresa, embora não admita a questão das características sociais. “Eu não tenho certeza se é legal encher meus contatos com essas informações”, disse Manley, que é estrategista de mídias sociais na Vanderbilt University Medical Center, em Nashville. Manley, que é usuária do aplicativo há cerca de um mês, diz que utiliza o serviço com  regularidade diretamente no seu celular.

O vício no envio de notificações ao 23andMe, porém, já é visto como algo que pode acelerar uma significativa mudança de comportamento. “Para certos usuários, isso poderá ser um elemento de exibicionismo, exatamente como acontece hoje em dia”, disse a antropóloga Brenda Bradley, da Universidade de Yale.

A 23andMe, que se autoproclama no seu blog a primeira rede social de genética, tem algo em torno de 150.000 usuários. Embora não confirme quantos novos membros se cadastram todos os meses, a empresa afirma ter registrado um crescimento anual de 100% nos últimos anos.

Alguns usuários, como o bioquímico, fundador e colaborador da Wired, Aaron Rowe, acredita que “as pessoas não vão passar muito tempo nessas plataformas”. Mas, ao passo que as novas tecnologias se tornarem mais baratas e as APIs se abrirem totalmente, os atrativos aumentarão, assim como o número de usuários que irão gastar mais tempo em espaços como o 23andMe. 

Pensando nisso, a empresa iniciou a aquisição de laboratórios de entretenimento, como o DNA Melody, que transforma o seu DNA em música, e o Neanderthal Ancestry, que calcula através do DNA de um neandertal qual a personalidade que ele teria, de acordo com o website, além da marcação dele no Foursquare. 

Segundo Misha Angrist, geneticista do Institute for Genome Science and Policy at Duke University, se a cultura jovem abraçar o conhecimento do genoma humano através das redes sociais voltadas para esse assunto, “isso será muito bom. Você poderá ter um botão sobre seu status de relacionamento ou um mapa que indica tudo o que você é geneticamente.” Dados que, na opinião de Angrist, também usuária do 23andMe, serão compartilhados normalmente.

Conforme o compartilhamento de informações genéticas avança, novos questionamentos a respeito das informações pessoais que serão acessadas estão surgindo. Cynthia Manley, por exemplo, se mostra preocupada com o fato de que, ao compartilhar seus genes agora, os cientistas podem descobrir no futuro uma eventual mutação genética que ela pode não querer revelar. 

A estrategista não está sozinha nessa opinião. “Meu maior receio é com a proteção da nossa privacidade no futuro. Talvez agora mesmo, você esteja ansioso para compartilhar suas informações genéticas, mas talvez daqui a 30 anos você pode não querer que aquilo tudo esteja lá”, disse Bradley, a antropóloga de Yale. 

Polcari não sabe dizer como alguns usuários do 23andMe vão lidar com o fato de seus dados genéticos estarem visíveis e sobre total responsabilidade dos desenvolvedores, mas ele espera não ter problemas, e que tudo se resuma em uma app de celular. "Nós estamos apenas começamos" disse ele. 

Aliás, desde que começou a crescer, a 23andMe encara os mesmos desafios que o Twitter e o Facebook tiveram que enfrentar: como monetizar as informações, permitir o acesso dos desenvolvedores a esses dados e proteger a privacidade dos usuários? E mais: como encorajá-los a compartilhar cada vez mais?

No que diz respeito aos desenvolvedores, a empresa possui um contrato de trabalho contendo uma cláusula de garantia que estabelece "o máximo cumprimento na aplicação das leis, bem como a concordância (dos desenvolvedores) quanto a inocência e idoneidade da 23andMe... que é isenta de qualquer responsabilidade atribuída ao mau uso das APIs."

Quanto aos usuários, "o ônus do compartilhamento", diz Polcari, "é definitivamente individual".

Fonte: Wired.com

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Vamos dar quitutes às vacas?


Quando o preço do milho aumentar, que tal alimentar o gado com tortinhas

Foto: Paul Octavious

Autora: Sara Breselor

O leite está uma delícia, mas poderia ficar bem melhor se viesse com Negresco. No que as vacas concordam. E recentemente os fazendeiros norte-americanos têm sido mais do que bem sucedidos ao satisfazê-las. No último verão, uma severa estiagem dizimou as lavouras de milho e empurrou o preço da mercadoria para o alto. Com isso, alguns produtores tiveram que se virar para arrumar comida para o seus rebanhos. As principais soluções? Barras de chocolates, goma de mascar, balas e, é claro, biscoitos.

"Este ano não foi fácil para os produtores de leite", disse Jack Hamm, do Lima Ranch, em Lodi, na Califórnia, que abastece regularmente suas cocheiras com biscoitos com prazo de validade vencido. Felizmente, o primeiro estômago dos ruminantes, o rúmen, é cheio de micro-organismos que se alimentam de tudo aquilo que o animal ingere. Esses micróbios quebram as moléculas de açúcar que se convertem facilmente em gordura e que são absorvidas diretamente pela corrente sanguínea. Desta forma, tanto os bovinos de leite quanto os de carne podem consumir doces. Praticamente nenhuma molécula escapa intacta do rúmen bovino, motivo pelo qual a vaca que se alimenta de Sucrilhos não produz o (dispensável) leite pré-açucarado.

"De qualquer tipo de comida, você pode fazer comida", disse Jim Oltjen, um especialista em ciência animal da UC Davis. Doces são bons, desde que sejam manejados com equilíbrio nas rações – em torno de 10% para cada 28 quilos de matéria seca consumida diariamente pelo animal. Nutricionistas ajudam os fazendeiros a balancear as refeições com produtos que contém glicose – tais como casca de uva e bagaço de milho – visando encontrar uma dieta mais nutritiva pelo menor preço. Não é o que a natureza programou? Talvez, mas Hamm afirma que está utilizando uma série de coisas que seriam enviadas para o lixo e, com isso, reduzindo o impacto ambiental de sua fazenda. É um jeito de deixar as coisas açucaradas.

Fonte: Wired.com