Mostrando postagens com marcador Granta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Granta. Mostrar todas as postagens

domingo, março 17, 2013

Tudo em família


Autor: Claire Vaye Watkins*

Quem primeiro veio para o Vale da Morte foi meu pai, motivado pelo discurso de Charles Manson. Ele sempre fazia o que Charlie pedia, e dizia que isso significava ser uma “Família”. O deserto que meu pai conheceu foi o lugar dos buggies de areia e do Juízo Final, a terra acessível apenas por veículos com tração nas quatro rodas, onde nem mesmo Helter Skelter cruzaria o seu caminho. Ele ficou no Vale da Morte durante os assassinatos do caso Tate-LaBianca e depois fugiu. Foi aqui que um velho garimpeiro chamado Crockett perguntou-lhe, depois da matança, se ele realmente acreditava naquela besteira toda do Charlie. E foi aqui que o meu pai sentiu pela primeira vez a textura aveludada da argila dentro das suas unhas, a liberdade de puxar um pedaço opala ou turquesa da rocha com suas próprias mãos, o cheiro no ar de ervas do campo depois da chuva.

Charles Manson ao ser preso, em 1969 (Wikimedia/Commons)

Acredito que era nisso que ele pensava no dia em que se aproximou de Charlie no Spahn Ranch – depois dos assassinados mas antes do ataque – e perguntou se os acordos seriam cumpridos. Ou a noite, pouco depois de abrir a porta da choupana, meio sonâmbulo, e encontrar Charlie e Tex agachados no meio da escuridão e com facas entre os dentes. O deserto foi a sua salvação, o amor da sua vida. Por 15 anos, até o dia em que eu nasci. O que seria de nós se este lugar não tivesse salvado o meu pai?

Assisti um vídeo dele todo bronzeado na CNN usando uma camisa de abotoar até o pescoço com uma gravata de bolinhas. Vi que ele perdia tempo com um receptor defeituoso enquanto falava sobre os amigos e a “Família”, repetindo sem parar, como estivesse louco. Eles se consideravam anjos divinos, uma onda revolucionária que salvaria o mundo. Em outro vídeo, ele está apoiado em travesseiros e deitado na cama de onde não saiu até morrer de leucemia. Ele olha para dentro da câmera e diz: Aqui estou eu, minhas lindas. Quero que vocês saibam que as amo muito. E também quero que vocês saibam tudo o que eu fui.

Quer dizer que ele pensou que poderia ser questionado um dia? Quando ele morreu, eu tinha seis anos. Não tenho nenhuma lembrança que ele esperava que eu tivesse. Mas tenho CNN e Helter Skelter. Às vezes, eu vejo ele lá. Vejo novamente suas entrevistas, ouço sua voz grossa e trêmula em muitos lugares familiares. Ouço, mas acho que ele não gostaria que eu falasse sobre isso.

Na verdade, o que ele me deixou foi isso aqui: um lugar distante no meio do deserto, na altura da Highway 127, ao sul do Vale da Morte. Vemos isso aqui como turistas, apesar de que somos o oposto; afinal de contas esse é um lugar que nós conhecemos muito bem. Eu e minha irmã estamos com os pés no chão, ela movimenta os braços, eu mexo na terra. Aqui, neste solo perigoso cheio de: cabeças de bode, arbustos espinhosos e plástico. Escorpiões e cascavéis. Sim, é possível encontrá-los por todos os lados. Exatamente como era quando meu pai andava por aqui com a “Família” antes de existir a nossa família.

Certa vez me contaram que nossos cães rodearam uma cascavel enorme perto de casa. Meu pai pegou a cobra e cortou a cabeça dela com uma pá, e fez questão de nos mostrar. Minha irmã estava aprendendo a andar e ficou curiosa, tal como a filha dela é hoje, e pegou a cobra morta nas mãos. Ouvi essa história tantas vezes, tive que jurar que se tratava de uma lembrança. Então, minha irmã pegou a extremidade cortada daquela cascavel, levou à boca e começou a chupar.

*Escritora norte-americana, filha de Paul Watkins, um dos braços direitos da seita de Charles Manson, que não teve participação nos assassinatos e, portanto, não foi condenado. Paul Watkins faleceu em 1990.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Entrevista: editora da Granta Noruega



Autor: Ted Hodgkinson

O último 31 de janeiro foi marcado pelo lançamento da Granta Noruega, publicada pela Gyldendal. O primeiro número, cujo tema é Tragédias, traz não só os escritores noruegueses como também os colaboradores da última edição em inglês – que inclui nomes como Alice Munro, Roberto Bolaño e Jennifer Egan. Em meio ao número crescente de versões internacionais, a editora norueguesa de novidades da Granta, Trude Rønnestad, falou ao editor online Ted Hodgkinson sobre a satisfação de selecionar o tema e como ela conheceu a revista.

TH: Dar espaço às variadas vozes e estilos da literatura norueguesa esteve entre as suas preocupações enquanto selecionava os escritores para compor esse primeiro número da Granta?

TR: Sim, até certo ponto tentei fazer um número que gira bastante em torno da imagem da literatura norueguesa. Aqui, é considerável a variedade em termos de gerações e níveis de experiência – mas também de pontos de vista, formas, estilos e gêneros. Na Noruega, existem muitos bons escritores de não-ficção também – e que, na minha opinião, não poderiam ser esquecidos. Com certeza, esses escritores que falam da Noruega contemporânea não estão representados neste primeiro número da Granta. Tive que selecionar trabalhos com uma linguagem mais abrangente – onde a narrativa é o principal: e curta, como são os textos da Granta.

É mais fácil distinguir os escritores dessa edição pelos conceitos em comum que são compartilhados ou por suas diferenças?

Suspeito que eu não seja a melhor pessoa para responder essa pergunta, o leitor estrangeiro provavelmente irá reconhecer muito bem esses traços que as histórias norueguesas têm em comum; embora, para mim, elas sejam completamente distintas. O humor é diferente, assim como as experiências e os projetos literários. Entretanto, eu tenho certeza de que alguém pode perceber, ou esboçar, alguma coisa particular da identidade norueguesa em diversos textos, ainda que os temas trabalhados sejam universais. Além do mais, as características físicas dos personagens são particularmente norueguesas, sejam eles das grandes cidades, do litoral ou do interior.

O tema "Tragédia" parece se encaixar muito bem com a atual situação mundial; como você chegou a esse tema e houve alguma surpresa na abordagem feita por algum dos escritores?

Nós levantamos diversas ideias para o tema, mas a que realmente nos contagiou foi "Tragédia". Não só porque estamos vivendo a era das Falências (ou pelo menos a que deveria ser), seja ela política, ecológica ou financeira – mas também porque a experiência do 22 de julho de 2011 está bastante presente em nossas mentes. Aquilo é um tipo de acontecimento que abalou não só a Noruega, mas outras partes do mundo. Isso por si só é um tema literário que pode ser abordado de vários ângulos, desde o material de caráter intensamente particular até o claramente político. Vários colaboradores noruegueses escreveram muito sobre o aspecto pessoal dos colapsos – o choque da morte, a ruína desesperadora das famílias. Talvez esses reflexos tenham sido – até aqui – encobertos pelas mais prosaicas formas de falência, tais como as crises financeiras dos últimos anos.

Dos diversos nomes que poderiam ser familiares aos leitores de língua inglesa, mas que não são por falta de traduções, você gostaria de citar algum?

Considero difícil, devo dizer, destacar um único nesta edição. É uma lista grande e reúne diversas vozes literárias importantes. Tenho que ressaltar que fizemos questão de traduzir todos os textos do Norueguês para o Inglês. Acreditamos que o mérito de qualidade dos textos está aí – quando o escritor é digno de ser lido em outra língua.

Você poderia nos contar qual seria o próximo tema?

Trabalho. É um tema que já foi utilizado na edição inglesa, mas nós o consideramos muito bom – além de muito importante – para abordar. Seria uma pequena ênfase do trabalho na literatura atual.

Você se lembra qual foi a primeira vez que leu a Granta?

Lembro como se fosse hoje. Foi um número de 1983, Bill Buford’s A Literature for Politics. Eu tinha apenas sete anos, portanto não poderia ler aquela publicação! Mas anos depois eu encontraria a revista em um sebo – e isso se tornaria uma lembrança inesquecível.

Fonte: Granta.com