quarta-feira, novembro 26, 2014

Paz, um dever perpétuo e universal*

Felicidade e imperativo categórico no pensamento de Immanuel Kant

Por volta de 1762, o pensador franco-suíço Jean-Jacques Rousseau escreveu aquele que é um dos seus principais trabalhos e que se consagrou um clássico do iluminismo, a obra O Contrato Social. A ideia do “bom selvagem”, já iniciada por Montaigne1, ganha o coração dos mais céticos até então entorpecidos pelo naturalismo newtoniano e pela matematização leibniziana que cobriu a Europa na Era da Razão. Na França, Luís XVI chega ao poder; Cavendish e Priestley avançam nas pesquisas com o hidrogênio no Reino Unido; e, em Konigsberg, na Alemanha, ou melhor, na antiga Prússia, o filósofo Immanuel Kant publica a impactante Crítica da Razão Pura (1781).

Kant viveu o momento empolgante e inédito de promulgação dos direitos civis alinhando-se com a filosofia de Thomas Hobbes no âmbito político2. Defendeu uma ética pautada em regras e, portanto, em preceitos morais – mantendo desconfiança em relação à boa inclinação natural dos homens. Sua reflexão difere da virtude aristotélica como modelo de conduta e abstrai a validade das leis morais a um nível descomunal desenvolvendo uma metafísica específica para se referir à ética.

Tudo na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade de agir segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios, ou: só ele tem uma vontade. Como para derivar as ações das leis é necessária a razão, a vontade não é outra coisa senão razão prática. Se a razão determina infalivelmente a vontade, as ações de um tal ser, que são conhecidas como objetivamente necessárias, são também subjetivamente necessárias, isto é, a vontade é a faculdade de escolher só aquilo que a razão independentemente da inclinação, reconhece como praticamente necessário, quer dizer bom”3.

No conflito das ideias transcendentais, Kant propõe que a causalidade advinda das leis da natureza não é a única via por onde se pode conhecer os fenômenos do mundo, pois, no caso do homem, por exemplo, elemento da natureza e do conhecimento, essa cadeia causal se expressa de outra maneira. Qual seja, através da representação, ou da ética, mas uma ética diferente da tradicional. Porque a ética em si, de acordo com o filósofo alemão, não leva à felicidade. O que pode ser considerado bom para um indivíduo pode não ser ao outro.

Isso porque os fenômenos da natureza são identificáveis através de sua causalidade, mas na natureza humana existe a causalidade pela liberdade que não vai ao encontro de certos determinismos. Em Kant, a razão produz uma maneira de querer específica, que é o querer ético, em outras palavras: a vontade. Porém, uma vontade que tem de ser voltada para o universal, assim como para o bem e o dever, pois é deontológica, e não teleológica como em Aristóteles.

De tal modo, surge a proposta kantiana de tratar o próximo sem caracterizá-lo como um meio, mas como um fim em si. A ideia é superar o homem enquanto tensão com a natureza conduzindo-o além da civilidade à moralidade – na qual a sociabilidade insociável o distancia. Na perspectiva histórica, Kant é filho do iluminismo e, conseqüentemente, depositário da razão. É através dela, acredita o filósofo alemão, que podemos responder às perguntas que dizem respeito a legitimação de nossas ações.

Contudo, há o conflito entre a razão pura e a razão prática, entre os princípios a serem adotados no âmbito das regras particulares ou gerais. Daí nasce a divisão entre as máximas subjetivas e os imperativos universais.

Nesse último caso, a ética esbarra primeiramente nos meandros do desejo, da destreza, técnica, problemática e prudência, ou seja, no campo do imperativo hipotético, para elevar-se até o valor de modo universal e necessário que é o dever ser4 (söllen), a boa vontade, ou o imperativo categórico. De acordo com o filósofo Rawls, “Por imperativo categórico Kant entende um princípio de conduta que se aplica a uma pessoa em virtude de sua natureza de ser racional igual e livre.5

A defesa da autonomia da lei moral, colocando a boa vontade no patamar de máxima universalmente legisladora, rompe com os alicerces da ética tradicional cujo entendimento se fazia através de princípios como a vontade de Deus, a ciência natural e o sentimento moral, ou de conceitos como o de harmonia e perfeição (matemática). Do ponto de vista crítico, a exemplo da análise feita por Bertrand Russell, a boa vontade kantiana como caminho incondicional para se chegar a verdadeira felicidade é uma opinião radical e que pode ser considerada um tanto austera. “Tudo se converte numa série de deveres bastante desagradáveis e enfadonhos, executados não por desejo, mas por princípio. Quem os executa é a boa vontade, a única considerada incondicionalmente boa”6.

Russell identificou no imperativo categórico uma série de conseqüências muitas vezes impertinentes e teceu os mesmos comentários em relação ao panfleto “A Paz Perpétua”, publicado em 1795. Contudo, o filósofo britânico não deixou de ressaltar que as duas ideias fundamentais expostas no panfleto, a de governo representativo e de federação mundial, deveriam ser efetivamente recordadas “nos nossos dias”7, tendo em vista a concordância na sociedade contemporânea de que a busca pela felicidade deve se fazer através de princípios morais.

Bibliografia

Coleção Os Pensadores. Montaigne, Nova Cultural, São Paulo. 1991.
Coleção Os Pensadores. Hobbes, Nova Cultural, São Paulo. 1999.
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. 3ª edição rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução: Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 1995.
RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Tradução: Almiro Pisseta e Lenita M. R. Esteves. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

1Ensaios, capítulo XXXI, Dos Canibais.
2“Tudo, portanto, que advém de um tempo de Guerra, onde cada homem é Inimigo de outro homem...”. O Leviatã, Parte I, capítulo XIII.
3Fundamentação da Metafísica dos Costumes, p. 47.
4“É o dever mesmo que é o bem, não tendo outra justificativa senão ele mesmo”. Dicionário Básico de Filosofia, pág. 69.
5Cf. John Rawls, em Uma Teoria da Justiça, pág. 277.
6Cf. Russell, em História do Pensamento Ocidental, pág. 349.
7Idem, pág. 350.

* Texto apresentado na disciplina Ética e Cidadania II, no 2° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

terça-feira, novembro 25, 2014

Univocidade e Ser Infinito no pensamento de Duns Escoto*

 “Todo conhecimento começa pelo ser,
que é a primeira noção concebida pelo nosso intelecto
para que concebamos alguma coisa determinada, ou não.1
Mário Ferreira dos Santos, em Filosofia Concreta.

Condecorado com o título de Doutor Sutil e, mais tarde, Doutor Mariano, o escocês João Duns Escoto viveu entre o final do século XIII e início do século XIV. Está vinculado ao pensamento escolástico, mas é reconhecido por comentadores e especialistas em Filosofia Medieval2 como um pensador inovador e original. A possibilidade de se conhecer os seres imateriais, e conseqüentemente Deus, é a grande discussão de sua obra metafísica. Nela, Escoto busca resposta à questão: será possível ao ser humano com a sua finitude conhecer a grandeza do Ser Infinito, que é Deus? De acordo com o escocês, o entendimento a respeito do ser em si e da natureza da abstração são fundamentais para se chegar a solução da referida problemática.

Para Escoto em primeiro lugar, pontua Costa Freitas, está o ser, mas o ser na sua concepção pura, independente de qualquer distinção categorial ou modal3. O que significa entender o ser não como efeito ou resultado, como algo pronto, interpretado a partir daquilo que já é, mas o ser em estado anterior ao dado, livre de classificações e caracterizações (categorias) ou de particularidades e determinações (modos).

Ademais, se se questiona a respeito do conhecimento do ser ou daquilo que é verdadeiro, responde-se que o intelecto, em virtude do que lhe compete de puramente natural, pode conhecer o verdadeiro tomado neste sentido”4. Ou seja, Escoto sinaliza para a existência de um ser que é objeto primeiro da inteligência e que, segundo Costa Freitas: “Equivale, por isso, a entidade pura e diz-se de tudo o que é inteligível em si mesmo. Absolutamente indiferente à natureza das coisas, constitui, por isso mesmo, uma verdadeira noção transcendental.5

Vale lembrar que o referido período histórico é marcado pela transição do neoplatonismo dos clérigos que se lançavam a filosofia para o aristotelismo cujo triunfo é registrado no século XIII (Russell, 2001)6. Portanto, Escoto está renunciando à interpretação do ser a partir do viés dos universais e particulares, a ideia do Uno que descente; e renuncia também ao ser unitário que tem na revelação a fonte de conhecimento (fé e razão). A ruptura do pensador escocês com a filosofia tradicional é evidente, por exemplo, na ideia de que o conhecimento de Deus não se resume à experiência sensorial tomista, tampouco ao conceito agostiniano de iluminação divina.

Acontece que entre Deus e a inteligência humana temos o ser enquanto ser (ens inquantum ens), que está sujeito à intencionalidade de tal inteligência ou, em outras palavras, à vontade.

Da mesma maneira que o poder supremo reside na vontade de Deus, na alma humana Duns sustenta que é a vontade que governa o intelecto. O poder da vontade dá liberdade aos homens, enquanto o intelecto é restringido pelo objeto ao qual se aplica. Disto se depreende que a vontade só pode captar o que é finito, pois a existência do ser infinito é necessária e portanto anula a liberdade”. (Russell, 2001)7.

Por isso, é no ser finito, que tudo apreende no sentido de construir e dar vida à realidade existente, que é possível que o mundo seja inteligível e, portanto, é através dele – transcendentalmente – que chega-se à abstração do Ser Infinito. Não por compreensão, mas por vontade.

É o ser primeiro que dá condições à experiência, à realidade, Deus e tudo mais que existe, de tal modo que o entendimento sobre o ser nos conduz à univocidade, qual seja, a certeza de que trabalhamos com uma verdade irrefutável, coerência argumentativa, unidade lógica ou prova apodítica: a irredutível realidade do indivíduo.

O sujeito de Duns Escoto é transcendental e unívoco, entendido como aquilo que “possui um único significado, que se aplica da mesma maneira a tudo que se refere. Correspondência entre dois elementos que se dá de uma única maneira”8. O que implica não existir contradição entre aquilo que é (o ser, Deus e as criaturas), de tal maneira que trata-se de um só e mesmo conceito.

Conclui-se, assim, que à resposta a pergunta inicial (será possível ao ser humano com a sua finitude conhecer a grandeza do Ser Infinito, que é Deus?) Escoto argumenta que “Deus não é conhecido naturalmente pelo homem nesta vida, de maneia particular e própria, isto é, não é conhecido em sua essência como tal essência e em si mesma”9. Em seguida, lança o conceito de univocidade, conquanto afirma que o ser finito é condição necessária, do ponto de vista transcendental, para a realidade divina, independente de compreendê-la ou não. “O que se conhece de Deus é conhecido através de representações inteligíveis das criaturas.10

É o que Costa Freitas vai identificar como a filosofia do Amor em Escoto, uma vez que a concepção de unívoco propõe a afirmação ontológica de que tudo aquilo que é está automaticamente oposto ao nada. Nas palavras de Dos Santos: “O contrário da entidade é o nada absoluto”11.

Bibliografia

Coleção Os Pensadores. Sto. Tomás, Dante, Scot, Ockham. Vol. VIII, Abril Cultural, São Paulo. 1973.
DE LIBERA, ALAIN. A Filosofia Medieval. Tradução: Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
FREITAS, MANUEL BARBOSA DA COSTA. O ser e os seres infinitos. Itinerários Filosóficos. Lisboa: Editorial Verbo, 2001.
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. 3ª edição rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
RUSSELL, B. História do Pensamento Ocidental. Tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
DOS SANTOS, MÁRIO FERREIRA. Filosofia Concreta. Introdução e notas: Luís Mauro Sá Martino. São Paulo: É Realizações, 2009.

1Mário Ferreira dos Santos. Filosofia Concreta, pág. 613.
2Cf. Alain de Libera destaca em A Filosofia Medieval, pág. 62, apesar de alertar para a influência da filosofia avicenista no conceito metafísico de ser em Duns Escoto.
3Manuel Barbosa da Costa Freitas. O ser e os Seres. Itinerários Filosóficos, pág. 5 e 6.
4João Duns Scot, Os Pensadores, pág. 240.
5Idem.
6Bertrand Russell. A História do Pensamento Ocidental, pág. 225.
7Idem. Pág. 225, 226.
8Hilton Japiassú & Danilo Marcondes. Dicionário Básico de Filosofia, pág. 266.
9Idem cit. 4. pág. 268.
10Idem, pág. 269.
11Idem cit. 1.

* Texto apresentado na disciplina História da Filosofia Medieval, no 2° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

quinta-feira, outubro 30, 2014

Dois pesos, duas medidas*

O bem supremo aristotélico como finalidade do Estado frente ao cidadão

            Na metade do século IV a. C., os primeiros vestígios de declínio da aclamada democracia ateniense[1], o sofismo predominante e a expansão alexandrina alcançando bárbaros, exigiram do filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) a tarefa de pensar a questão grego-política por meio do viés analítico – tão caro ao seu projeto de investigação filosófica. A pergunta a ser respondida era: “Qual o melhor sistema de governo?”.

Ainda que o Estagirita mantivesse a busca pelo bem supremo como fim maior da organização social, seu raciocínio tomou rumo oposto ao dos pré-Socráticos e ao de Platão – esse, sim, um genuíno cidadão grego –, ao elaborar um conceito de justiça que extrapolou a tradição helênica e o ideário constituído na República. Para os contemporâneos e sucessores de Tales de Mileto, os deuses; para Platão, começar do zero expulsando poetas e coletivizando mulheres e crianças; para Aristóteles, é preciso fazer “ciência” e enxergar a política de forma mais completa.

Segundo o filósofo, o exame da matéria política deve deixar o plano da generalização, da ideia de que os seres humanos (cidadãos) são todos iguais, e tem de passar pelo princípio de análise em virtude de sua natureza diversa tal qual os demais objetos do conhecimento.

“Acostumamo-nos a analisar outras coisas compostas até que não possam mais ser subdivididas; façamos o mesmo com o Estado e com as partes que o compõe; e entenderemos melhor as diferenças entre um e outras, e se podemos deduzir algum princípio de funcionamento das diversas partes”. (Política, I, 1, 3)

Esse princípio de funcionamento é o que define o arquiteto enquanto construtor de casas, o marceneiro enquanto fabricante de cadeiras, o médico enquanto especialista em saúde. Todo cidadão, de acordo com Aristóteles, antes do caráter político, tem sua predisposição natural a determinadas habilidades[2]. Conciliar essas características (diferenças) com a inclinação para o convívio social, mantendo o equilíbrio e a harmonia necessárias, é o norte que a política deve seguir. A garantia do bem comum ao cidadão é a garantia do bem comum ao Estado, ou seja, a virtude.

Reta Justa

Aristóteles entende que só é bom (justo) aquilo que faz bem a todos. Por isso, os extremos devem ser evitados e a medida certa (meio-termo) empreendida. Aqui notamos aquilo que Reale[3] vai classificar como uma crítica ao comunismo platônico, uma vez que o Estagirita sinaliza que um governo do povo privilegiaria somente uma camada social. Sendo assim, na Política, três são as formas de governo ideais: a monarquia, a aristocracia e a politeia. 

“Antes de mais nada, é preciso dizer que as três formas de governo, quando exercidas com retidão, são naturais e portanto boas, porque o bem do Estado consiste em visar o bem comum”.
(Introdução à Aristóteles, cap. VI, pág. 133).

E três, são as formas ilegítimas: a tirania, a oligarquia e a democracia (vista como privilégio de apenas uma classe). Porque essas últimas estão fora de ordem, são desmedidas. Profundo conhecedor de outras cidades e regiões, Aristóteles entendia que apenas em Atenas seria possível a realização da pólis ideal devido ao caráter e à cultura do cidadão grego que automaticamente o eximia de viver sob a tutela de um governo ilegítimo.

Por outro lado, ao decompor o Estado até a família e, depois, até o indivíduo, Aristóteles mostra, conforme aponta Russell, que mesmo no nível mais primitivo de organização existe uma noção de ordem. “Ordem é, antes de tudo, ordem social”[4].

Olhar teleológico

Portanto, é imprescindível compreender que Aristóteles visa fazer conhecimento a partir da ideia de que tudo é composto dentro de uma lógica e constituído de uma determinada finalidade, ou objetivo. Foi assim com a ética, biologia, metafísica e outros temas. Ou seja, a política também guarda as características intrínsecas à sua natureza e tais elementos se compõe buscando um fim ético.

No caso dos cidadãos, enquanto seres que naturalmente tendem ao convívio social[5] e não à exclusão e retidão extrema, esse fim não poderia ser algo que causasse prejuízo, dor e sofrimento, ou tampouco a extinção dos próprios indivíduos.   

Isso significa que a boa sociedade caminha em direção ao seu único objetivo: a felicidade. O Estado ideal, portanto, seria o Estado feliz. Enquanto garantia de manter guardadas as devidas proporções.

Bibliografia

Coleção Os Pensadores. Aristóteles, Nova Cultural, São Paulo. 1999. Política, I, 1; II, 4. Metafísica, I, 1. Ética a Nicômaco, I e II.
JAEGER, W. (1936) Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. 3ª edição rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
RAVEN, J. E.; KIRK, G. S.; SCHOFIELD, M. Os Filósofos Pré-Socráticos. Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 8ª ed., 2013.
REALE, GIOVANNI. Introdução à Aristóteles. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
RUSSELL, B. História do Pensamento Ocidental. Tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.



[1]   Cf. o historiador alemão Werner Jaeger tão bem ilustra no Livro Quarto da sua obra Paideia, a formação do homem grego.
[2]   Aqui encontra-se uma das discussões polêmicas em relação à filosofia aristotélica em razão do conceito de cidadão  que exclui a figura da mulher na sociedade e que contempla a existência de escravos, bem como de pessoas incapazes de se civilizar (bárbaros e estrangeiros).
[3]   Reale, Giovanni, Introdução à Aristóteles, pág 130,136.
[4]   Russel, Bertrand, História do Pensamento Ocidental, pág. 18. 3ª ed.
[5]   ζῷον πoλίτικoν (Zóon Politikon): conceito de animal político, ser social, exposto no livro Política. Assim como o homem tende (finalidade) à sociedade, tende ao saber, como exposto na Metafísica, e por isso à virtude.

* Texto apresentado na disciplina Ética e Cidadania II, no 2° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

quarta-feira, outubro 29, 2014

A verdade mata*

Em "Giordano Bruno", diretor italiano mostra os últimos passos do filósofo renascentista

Religião, política, sexo e ciência. Esses são os principais ingredientes que compõem a elegante e fluvial Veneza, na Itália, na transição do século XVI para o XVII, quando as chamas das fogueiras da Inquisição começavam a se apagar. Epicentro cultural, artístico, comercial, naval e político-religioso, a cidade foi literalmente o destino – final – do frade, filósofo, escritor e astrônomo, Giordano Bruno, cuja vida foi retratada de maneira preciosa na produção de Giuliano Montaldo, de 1973.

Dono de uma sabedoria única, Giordano Bruno construiu uma história que por si só tornou-se sinônimo de spoiler1 uma vez que o seu trágico desfecho (na fogueira em Roma) é de conhecimento geral. No entanto, são os motivos que o levaram à condenação que servem de costura para a trama engenhosa montada pelo diretor italiano.

O filósofo foi bastante polêmico. Considerava que o mundo era um organismo vivo, harmônico, infinito e constituído de outros mundos completamente desconhecidos do ser humano. Criticou o geocentrismo aristotélico e defendeu o heliocentrismo demonstrando com fatos matemáticos que a Terra e os demais astros do sistema solar giravam em torno do Sol. Acreditava na metempsicose, ou seja na transmigração das almas, numa clara influência do pitagorismo. Entendia que todo filósofo é dono do próprio destino e que todas as pessoas têm a capacidade e o direito de filosofar. “Não existe diferença entre o Papa e um artesão, todos os homens são iguais”, escreveu Bruno.

Após percorrer as principais nações européias, o filósofo foi à Veneza e se hospedou na casa de um nobre local interessado em conhecimentos de magia. Nessa época, Giordano Bruno já era muito respeitado como cientista, porém visto como mago. Há também quem enxergasse nele a verdadeira encarnação do diabo, apesar de que – sem levar em consideração o nobre que o acolheu e os condenados pela Inquisição – ninguém ousou denunciá-lo.

Ainda em Veneza, Bruno foi julgado e obrigado a abjurar de suas ideias e filosofia, o que não passou de uma estratégia para continuar livre e pensante. Embora revolucionária, sua nova visão do cosmo e do Homem fez com que obtivesse o apoio de membros do clero que sinalizaram favorável a sua liberdade desde que as ofensas à Igreja fossem retiradas de suas obras. Bruno recuou, não abriu mão de seus princípios e acabou enviado à Roma – que se adiantava de todas as maneiras para tentar queimá-lo.

Ateísmo, blasfêmia, conspiração, heresia, traição, foram algumas das justificativas utilizadas para enviá-lo à fogueira. Isso sem falar na atuação política do filósofo que o diretor Montaldo expôs de forma brilhante. Durante o diálogo com os religiosos que o condenavam, Bruno refutou a crítica de um clérigo aos sistemas políticos de Estados como a França, Inglaterra e Alemanha, alegando que fora justamente os cristãos que ensinaram aos “novos” políticos como administrar as finanças e controlar o povo a partir da religião. “Por isso, esses Estados se dizem laicos e permitem todas as religiões”.

Antes de ser levado ao espetáculo de Campo de Fiori, Giordano Bruno ainda lançou dúvidas em relação à Santíssima Trindade agostiniana, na qual alegava ser incompreensível, denunciou as mazelas sanguinárias da Igreja associando tais atitudes com superstição, ignorância e violência, e não deixou de fixar suas concepções sobre a matéria, a forma, o universo e o todo.

O filme também aborda um aspecto importante na personalidade de Bruno, que é o seu caráter orgulhoso. O diretor deixa bem claro em diversas passagens que o filósofo poderia ter sido mais brando em comportamento, mas o espírito de liberdade o impedia de resignar-se. Sendo assim, não restou-lhe outro caminho se não o do “microondas” no fatídico 8 de fevereiro de 1600 e a conseqüente proibição de seus livros – o que não impediu toda a reforma que ocorreu na política e na ciência nos anos seguintes.

Por fim, vale destacar a trilha sonora da película composta com maestria pelo genial Ennio Morricone que uniu a pegada western macarrônica com o ponto fúnebre dos cantos celestiais. É assim que a verdade continua sendo dita. Ora pro nobis.


1Spoiler é um palavra de origem inglesa que significa basicamente “estraga-prazeres”, no que diz respeito à pessoa que revela intencionalmente o final de uma história inédita. Em português pode ser relacionada com o termo Espoliação ou com o verbo Esbulhar, conforme o dicionário Uol Michaelis. Fonte: http://www.tecmundo.com.br/youtube/2459-o-que-e-spoiler-.htm e http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=esbulhar, último acesso 25/05/2014.

* Texto apresentado na disciplina Oficina de Leitura e Produção de Texto Acadêmico, no 1° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.  

quinta-feira, setembro 05, 2013

O segredo dos grandes compositores britânicos

Músico e compositor, Daniel Rachel escreveu em parceria com a jornalista Caroline Sullivan o livro “Isle of Noises”, que reúne entrevistas com diversos músicos britânicos famosos. O foco das conversas está no processo criativo utilizado naquelas que podem ser consideradas as maiores pérolas da música pop mundial. Com a palavra nomes como Ray Davies (The Kinks), Jonny Marr (The Smiths), Lily Allen e outros. Selecionei trechos, a partir de material publicado no The Guardian de hoje, com o depoimento das seguintes figuras:

John Lydon, Sex Pistols

(Show com a banda PIL, em 1986 / Ives Lorson - Wikimedia)

DR: Você carrega um caderno para anotar frases ou ideias?

JL: Não. Eu nunca faria isso. Urrgh, não sou um integrante do The Clash. Eu me lembro que o Joe Strummer costumava assistir o The News at Six* e anotar os slogans e frases que seriam utilizadas nas canções. Ele não perdia tempo e escrevia coisas como “sten guns in Knightsbridge**” e “White Riot”. Além de ser totalmente fabricado, considero isso ridículo!

Mick Jones, The Clash

Show no Carbon Casino, em 2008. (Pmsphoto - Wikimedia)

DR: Como é que você e Joe Strummer uniam suas ideias para então levá-las ao resto da banda?

MJ: Às vezes eu andava com um gravadorzinho de fita cassete. “Complete Control”, por exemplo, foi feita assim. Em “London Calling” fechamos a letra, mas acabei dando uma suavizada na música que antes tinha uma batida mais robusta... Acho que essas canções vinham quase prontas... Somente mais tarde é que nós partimos para uma pegada mais experimental. Mas, depois, tivemos que cortar esse lado também. A exemplo das duas ideias para “Casbah”***. Bernie [Rhodes]**** disse: “Porque tudo que vocês fazem tem que ser raga?”. Você sabe, aquela música longa... no mesmo ritmo de sempre. Nesse dia, enquanto o aiatolá dizia que não gostava de rock'n'roll, Bernie nos pedia para encurtar tudo. Então o Topper entrou no estúdio, foi incrível. Ele pegou três coisas: o baixo, o piano e a bateria. Eu fiz o refrão “Shareef don't like it”, enquanto o Joe fez a letra. No entanto, Topper foi o grande maestro.

Annie Lennox, Eurythmics

Fac-símile capa do disco Revenge (Reprodução - Wikimedia)

DR: Você continua tomando conta de tudo nas composições como na época da parceria com Dave Stewart?

AL: Eu nunca pensei dessa maneira, acontece que eu escrevia as letras e o Dave trabalhava como um tutor/mentor nesse departamento (composição). Às vezes, eu escrevia 90% de uma canção... como em “Sisters Are Doin' It for Themselves” ou “There Must Be an Angel (Playing With My Heart)”, onde o Dave contribuiu com ótimas sacadas musicais em termos de forma e estrutura. Ele também ajudou bastante em ideias que começaram do zero, como “Sweet Dreams” e “Here Comes the Rain Again”. Em razão de ser aficionado por tecnologia de ponta, Dave era definitivamente o responsável pela parte técnica do processo de gravação. Nesse sentido, ele pode até ser considerado o “produtor”, embora eu também atuasse de forma mais orgânica na produção. Nós sempre dividimos tudo meio a meio, e é assim que enxergamos a nossa parceria.

* Noticiário da BBC de Londres, talvez comparado ao Cidade Alerta.
** Verso da canção 1977, do disco The Clash. Knightsbridge é um bairro de Londres, em livre tradução a frase seria algo como “as pistolas alemãs em Knightsbridge”.
*** Rock The Casbah, canção do disco Combat Rock.
**** Produtor e empresário da banda The Clash.

quarta-feira, junho 12, 2013

Protesto civilizado

O retorno da lógica “estupra, mas não mata”

Eu sei. Você não é favorável aos protestos contra o aumento de passagem do ônibus. Não concorda com a depredação do patrimônio público e considera injustificável o rastro de destruição deixado pelos manifestantes. Ou melhor, os tais baderneiros, vândalos e terroristas.

Manifestantes na avenida Paulista (Foto: Ricardo Rosseto)

Dessa linha de raciocínio também comunga a prefeita de São Paulo em exercício, a vice Nádia Campeão que, na rádio Estadão-ESPN, qualificou os atos como condenáveis. A população idem. Hoje, o avatar Rua Xingu, às 9h30, comentou no portal Globo.com “protesto por aumento de 20 centavos é uma vergonha”; o internauta Luiz Ruivo Filho, às 10h, no UOL, concluiu “certamente não se trata de um protesto natural mas, isto sim, da execução de um cronograma muito bem engedrado por baderneiros e desocupados que remete ao terrorismo. É próprio de deliquentes. Lamentavel. Tem de ser combatidos com rigor.”

Em menor número existem na seara digital oficial, mais precisamente no portal Terra, uns tais Dirceus – não o José, mas o Ribeiro – questionando a interpretação dos fatos: “os 'BADERNEIROS' fizeram uma manifestação por uma causa justa. E 'OS MENSALEIROS' que botaram a mão no bolso do povo?”.

Ontem (11/06), o jornalista Ricardo Rosseto, da Carta Capital, estava in loco no momento do conflito entre a polícia e manifestantes. Por volta das 22h40, Rosseto postou na rede social Facebook: “De acordo com o tenente-coronel Pignatari, comandante da situação, ao menos 20 pessoas tinha sido presas até às 22h30, horário em que ele ofereceu uma mini-coletiva ali mesmo na esquina da Haddock Lobo com a Paulista. Eles estavam sendo levados para o 78º DP, nos Jardins. Na maioria dos casos por depredação. A maior ofensa, entretanto, segundo ele, era desacato. Mas não havia camburão pra leva todo mundo que xingasse a PM, conforme falou Pignatari.”

Os representantes públicos trabalham para manter a ordem, mas a juventude urge. “Tem mais, às 17h, saindo do Teatro Municipal”, informou Rosseto em referência ao ato de amanhã (quinta-feira). “O governador está curtindo em Paris com o $ dinheiro (patrimônio) público e de lá quer processar aqueles que lutam por transporte coletivo de qualidade e preço justo”, avaliou o internauta Diogo, às 10h48, na Folha Online.

Enquanto isso, a população se posiciona: “pode protestar, mas sem violência”. Os fantasmas contra-atacam.

quinta-feira, junho 06, 2013

CIA investe em robôs escritores

Autor: Alex Fitzpatrick
Fonte: Mashable

A administração do presidente Obama pode estar trocando a CIA pelo Pentágono no controle do programa de drones do país, no entanto os robôs não ficarão desempregados em Langley* - ao menos, como escritores.

Sede da CIA, na Virgínia (EUA) / (Jim Sanborn/Wikimedia)

O braço de capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, investiu uma quantia ainda desconhecida na empresa Narrative Science, que desenvolveu um software capaz de transformar grande quantidade de dados em textos de fácil interpretação e leitura, segundo o site All Things D.

Com sede em Chicago, a Narrative Science começou transformando em texto as pontuações nos games de beisebol – algo semelhante aos comentários publicados nas colunas de esporte dos jornais locais.

Naturalmente, a Narrative Science levantou algumas questões que causaram impacto no jornalismo: será que ainda precisamos de escritores para descrever os eventos diários, se cada vez mais os jornalistas se afastam do “aqui está o porquê isso aconteceu” para o “aqui está o que aconteceu”? Ou, se já existem robôs que podem fazer muito bem esse trabalho? E aí por diante.

Apesar do impacto imediato no mundo jornalístico, os principais clientes da Narrative Science estão na área de serviços financeiros, marketing e campos de pesquisa. A CIA se encaixa na última categoria – a agência recolhe dados brutos que são mais atrativos aos seus pesquisadores e utiliza as mãos automatizadas para transformar todas essas informações em relatórios legíveis, que serão distribuídos aos agentes e superiores.

“A plataforma de inteligência artificial da Narrative Science analisa as informações e comunica esses dados de uma forma fácil de se ler e compreender”, disse Steve Bowsher, um dos sócios e gerentes da IQT, através de sua assessoria de imprensa. “Acreditamos que essas novas ferramentas podem ser de grande valor para os clientes que trabalham com Inteligência Estratégica”.

Será que a CIA vai utilizar escritores artificiais em tudo?

* Cidade norte-americana no Estado da Virgínia onde situa-se o quartel general da CIA.

quarta-feira, junho 05, 2013

Rápido no gatilho

Anúncio de página inteira nos jornais The Wall Street Journal e USA Today. Filme sobre a promoção (Cupom de US$ 1 de desconto) integrado com Twitter e outras redes sociais, apresentado pelo próprio diretor da empresa. É assim que a Carl's Jr.® & Hardee's® se mobilizou quando a líder mundial dos fast foods encerrou as vendas do Angus Third Pounder (no Brasil, o McAngus).


Caros consumidores de McDonald's®, 

Nós ficamos sabendo que o McDonald's® parou abruptamente de vender o hambúrguer de carne de Angus, deixando muitos de vocês desapontados, confusos e chateados. 

Ninguém curtiu essa restrição.

É por isso que, por tempo limitado, a Carl's Jr.® & Hardee's® vai oferecer o seu melhor e maior sanduíche, o Six Dollar Burguer™, com 100% carne de Black Angus, por bem menos do que você pagaria no McDonald's®. 

Acesse ReclaimYourAngus.com e faça o download do seu cupom. 

Portanto, se você estiver se perguntando onde vai comer um lanche com carne de Angus, a resposta é aqui. Somos a maior rede de fast food a servir os harbúgueres com carne 100% de Black Angus. Quer dizer, agora, somos os únicos.

Obrigado e te esperamos lá,

Andy Puzder
CEO of Carl's Jr. & Hardee's

segunda-feira, junho 03, 2013

O futuro é da carne falsa

Autor: Daniela Hernandez
Fonte: Wired

Sneak de frango falso (Foto: http://www.quarrygirl.com)

Pensando em mandar um suculento x-burger duplo? Você não está sozinho.

“Existe uma relação de amor com a cultura da carne”, disse Ethan Brown, CEO da start-up produtora de carne alternativa Beyond Meat, algo como “Além da Carne”, na 5ª Conferência de Negócios da Wired, em Nova Iorque.

Brown participou do evento e esclareceu algumas questões sobre o tema.

A Beyond Meat, com sede em Maryland, é voltada para o mercado de carne sintética e tem como carro-chefe as tiras de frango falso. No entanto, o público da empresa não são necessariamente vegans e vegetarianos*, mas sim os flexs, uma nova espécie de carnívoros ambientalmente conscientes que se satisfazem degustando tanto um tofu quanto uma costela de porco. Segundo Brown, os flexs somam cerca de 90 milhões de pessoas nos EUA, e muitos deles estão se despedindo da carne. Se depender de Brown, mais gente vai entrar para a turma.

Essa estratégia inclusiva faz da Beyond Meat uma empresa diferenciada em relação às outras que atuam no mercado de carne alternativa. Eles não querem trabalhar com um produto especializado. Almejam ser a Tyson ou a Perdue** dos produtos de carne à base de vegetais, e fazer algo tão popular quanto o bife frito, o frango assado e o churrasco de picanha.

Tendo em vista movimentos como o Meatless Monday, ou a Segunda Sem Carne, que ganham popularidade em toda a América, Brown considera que em pouco tempo o Silicon Valley deve começar a investir em companhias de alimentação. A Beyond Meat também está atuando pesado nas redes sociais, divulgando seus conceitos além dos tradicionais consumidores que não comem carne. De fato, a empresa possui mais seguidores no Twitter do que marcas antigas e mais conhecidas como a Tofurky.

Por enquanto, a Beyond Meat, que recebeu aportes do fundo de investimentos Obvious Corporation, dos co-fundadores do Twitter Biz Stone e Evan Willians, trabalha apenas com carne de frango, mas planeja expandir em breve os negócios para a carne bovina.

Ao tentar colocar seu produto entre a carne bovina, suína, de peixe e aves, tornando-o um alimento básico como qualquer outro, Ethan Brown se posiciona à frente da revolução da carne falsa. Essa proposta, acredita ele, pode mudar o jeito como as pessoas pensam a respeito dos substitutos da carne. Atualmente, os Tofurkies e Boca Burgers da vida estão relegados às sessões vegan ou vegetarianas dos supermercados, o que Brown chama de banco de reservas. Ou seja, os produtos não estão ao lado das carnes que eles supostamente iriam substituir. Este é o problema, no que outros especialistas concordam.

“Uma nova opção de alimento só é alternativa de verdade se estiver lado a lado dos produtos tradicionais”, disse Isha Datar, diretora da New Harvest, uma organização sem fins lucrativos que defende o consumo de fontes alternativas de proteína. “A não ser que você seja vegan, não se sabe onde esses produtos estão nas lojas. Na minha opinião, isso não é uma alternativa real”.

Ajudar as pessoas a mudar seus hábitos alimentares pode ser crucial, uma vez que alguns estudos indicam que a maneira de se produzir e consumir carne não é nenhum pouco sustentável.

“O setor de transporte contribui com 18% das emissões dos gases que causam o efeito estufa. Já a pecuária, de acordo com as estimativas, contribui com 51%”, disse Ethan Brown durante a conferência. É esse cenário que o inspira a engatar a primeira marcha na área de proteínas e acelerar em direção à comida.

A carne falsa de frango, que agora é vendida em lojas especializadas, é resultado do trabalho árduo de Fu-hung Hsieh e Harold Huff, dois cientistas da Universidade do Missouri, em Columbia, que há 15 anos se dedicam ao projeto (tecnologia cuja patente a Beyond Meat é detentora exclusiva). Hsieh e Huff passaram anos aprimorando a maneira de se resfriar, aquecer e pressionar a mistura de proteína de soja, através de uma extrusora, até chegar na aparência e textura mais semelhante possível de uma tira de frango natural.

Segundo Huff, um dos criadores da carne falsa de frango, uma das primeiras coisas que as pessoas avaliam em um alimento é a aparência e, depois, a textura. Em terceiro ou quarto lugar, está o sabor. E tem mais. “As pessoas não querem comer um frango e sentir outro sabor que não seja de tudo aquilo que foi utilizado no preparo, desde os condimentos até os temperos. Ninguém quer saber do gosto da carne de frango em si. E uma das vantagens desse produto é que vai bem em qualquer época do ano”, disse Huff.

O cientista informou que continuará trabalhando com a Beyond Meat para desenvolver novas alternativas à carne de frango, bem como para ajudar Brown a alcançar o seu objetivo de expansão da proteína vegetal. Brown quer ver a proteína animal seguir o mesmo caminho das carruagens após o advento do automóvel. “Por ventura, foi necessário se desvencilhar dos cavalos”, concluiu.

* Veganismo é um estilo de vida em respeito aos animais e que, portanto, evita o consumo e o uso de qualquer produto de origem animal (Fonte: veganismo.org.br). O Vegetarianismo tem a mesma filosofia alimentar, mas no cotidiano utilizam alguns produtos de origem animal (Fonte: centrovegetariano.org).

** Redes norte-americanas de produção e venda de carne de frango a exemplo da Seara e da Sadia, mas como lojas exclusivas no varejo.

terça-feira, maio 28, 2013

Veneno nas veias

Imagine um ser humano qualquer. Agora, imagine esse ser humano como uma pessoa que é apaixonada por vasos persas. Imagine que essa pessoa faça qualquer coisa para obter um vaso desses. Imagine que essa pessoa coloque até mesmo outro ser humano abaixo de um vaso persa em nível de importância. Imagine que essa pessoa, por uma vaso persa, chegue ao ponto de eliminar, ou seja matar, outro ser humano.

De quem estamos falando? Quem veio à sua memória? Um ditador?

Agora, troque esse ser humano qualquer por um garoto da comunidade, da periferia ou da favela, como preferir. Depois, troque o vaso persa por um tênis Mizuno que custa quase 1 mil reais. Em seguida, troque a necessidade de se obter um tênis Mizuno a qualquer custo por diversas prestações mensais ou por um mero assassinato.

De quem estamos falando? O que está acontecendo?

Geneton Moraes Neto e Joel Silveira, no Rio de Janeiro (geneton.com.br)

Ontem, sai do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, na rua Rego Freitas, palco histórico das lutas pela liberdade de expressão neste país, e fui subindo a rua da Consolação pensando nos parágrafos acima. Fui ao Sindicato assistir à exibição do documentário “Garrafas ao Mar: A víbora manda lembranças”, do jornalista Geneton Moraes Neto. O filme simplesmente trata da carreira e dos últimos dias de um dos maiores nomes do jornalismo, não só brasileiro, como mundial: Joel Silveira.

Éramos três ou quatro dezenas de gatos pingados no auditório Vladimir Herzog. Mas Geneton, Audálio Dantas, Sérgio Gomes, e outros importantes nomes das redações brasileiras, estavam presentes. “Há espaço para o texto de Joel Silveira nos veículos atuais?”, questionou Geneton. Não, não há, concluiu-se. Para quem tem o coração de um verdadeiro jornalista, o documentário é emocionante.

Confesso: não entendo. Por isso, rumino.

O ditador sanguinário e egoísta tem o direito de considerar que vasos persas são mais importantes do que seres humanos? Tem. O garoto da comunidade, da periferia, da favela, tem o direito de considerar o tênis Mizuno de 1 mil reais mais importante do que um ser humano? Tem. Mas o jornalista, o nobre repórter, nunca pode se render e querer fazer parte da banda. Estou com Joel Silveira, talvez enterrado, mas assistindo com todo orgulho a banda passar. Proseando com os Repórteres do Futuro, escrevendo neste mísero blog, mas vendo a banda passar.

segunda-feira, maio 27, 2013

As epifanias de Chris Anderson

O empreendedor e especialista em tecnologia fala sobre drones, vigilância e o que está por vir

Autor: Benjamin Pauker

Chris Anderson durante palestra em San Diego, 
na Califórnia (James Duncan Davidson/Wikimedia)

Chris Anderson já foi chamado de diversas coisas: visionário, pioneiro da economia na internet e evangelizador do ideal Do it Yourself 2.0 (Faça você mesmo). Contudo, não seria imprudente compará-lo a um cata-vento: ou seja, ele não pode controlar as correntes de ar, mas certamente é o primeiro a indicar qual a direção do vento. Físico, com especialização em mecânica quântica, foi Anderson que trouxe as curiosidades científicas para dentro da revista Wired. Durante seus 12 anos como editor, a publicação fez ciência e tecnologia parecer algo legal para os leitores. Nesse período, escreveu a trilogia das grandes ideias do Vale do Silício, na Califórnia, apresentando teorias como a “Calda Longa”, ou a venda online de qualquer coisa, e o conceito de gratuidade como um bom negócio. Seu último manifesto é “Makers: The New Industrial Revolution”, algo como “Fabricantes: a Nova Revolução Industrial”, onde ele conta estar investindo o seu dinheiro na 3D Robotics, uma empresa faça-você-mesmo que fabrica drones e enxerga oportunidade em qualquer parte do mundo. Depois disso, Anderson deixou de ser cata-vento. Está buscando os céus.

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As novas tecnologias, da viagem espacial à internet, sempre começam com custos muito altos e nas mãos dos militares. Depois, com a expansão em escala, a Lei de Moore* funciona como num passe de mágica. É quando as novas tecnologias atingem o consumidor em geral e é nessa hora que palavras como “personalização” entram em cena. Nesse ponto, não há espaço para apostas. Com os drones, estamos exatamente nesse estágio. Nós estamos começando notar alguns efeitos tais como os que surgiram com o advento do computador pessoal e da internet. A minha esperança é que as pessoas algum dia esqueçam que os drones começaram como uma tecnologia militar.

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E se, a cada manhã, um drone pudesse decolar e fazer a pulverização da lavoura. Ali mesmo no café da manhã, você poderia ter um relatório diário, independente do tipo de plantação que você tenha: tomates, trigo, uvas, entre outras. É possível saber se há um surto de pragas, de fungos ou doenças. Esse tipo de informação é de grande valor para fazendeiros por que isso pode significar uma boa economia. Além de contribuir também para o meio ambiente porque os fazendeiros usarão menos produtos químicos e menos água. Não podemos nos esquecer que temos um grande problema com a indústria mundial do agronegócio que, de acordo com a minha epifania, poderia ser resolvido com câmeras no céu.

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Câmeras estão espalhadas por toda parte, em qualquer lugar da nossa vida. E, é claro, isso gera preocupação em relação à privacidade. No entanto, a nossa percepção no que diz respeito à privacidade que nós temos e aquela que nós imaginamos é bem diferente. Nos Estados Unidos, a regulamentação desse tema é baseada no que nós chamamos de “Expectativa Razoável de Privacidade”, e que abrange o nível distrital. Sendo assim, diferentes bairros têm diferentes expectativas razoáveis de privacidade e que podem mudar a qualquer momento. É aquela velha história: eu tenho uma expectativa, meus filhos outra.

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É difícil ignorar o fato de que estamos vivendo um período de exponencial inovação tecnológica. Os drones personalizados são basicamente os dividendos da paz contra a guerra dos smartphones, no que diz respeito aos componentes de um aparelho – sensores, GPS, câmera, processadores, wireless, memória, bateria – enfim, todas aquelas coisas que são produzidas numa escala incrível para atender os últimos lançamentos da Apple, Google, e outros, e que estão disponíveis por uma bagatela. Há 10 anos, eles eram inacessíveis. E, em sua maioria, foram tecnologias desenvolvidas para a indústria militar; hoje, você pode comprar qualquer um desses produtos nas lojas RadioShack. Nunca vi uma evolução tão rápida na tecnologia como a que acontece atualmente. Tudo isso, porque podemos levar um supercomputador no bolso.

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Atualmente, eu não cometo mais o erro de tentar prever o futuro, prefiro sugá-lo. Tenho uma queda por isso – e me perdoem pelo trocadilho semântico aqui –, por desabar com a famosa afirmação de William Gibson que diz “O futuro é agora, e é simplesmente desigual”. Para prever o futuro, você tem que manter seus olhos bem abertos nele.

* Em 1965, o co-fundador da Intel Gordon Moore previu que o número de transistores em um pedaço de silício iria dobrar a cada dois anos, criando a conhecida Lei de Moore (Fonte: HowStuffWorks)