segunda-feira, maio 13, 2013

A Opinião Obtusa


O portal UOL lançou a alguns dias uma enquete que pode até passar despercebida, pois está disponível no canto inferior direito da página, mas que não deixa de ser bastante elucidativa. “Você acha que se não fosse pela ditadura militar, o Brasil hoje seria um país comunista?”, questiona o portal que oferece três alternativas básicas como resposta: sim, não e não sei.

Fac-símile home UOL (13/5/2013)

O surgimento da enquete coincidiu com a polêmica em torno dos depoimentos do cantor Lobão e a, conseqüente, represália de artistas como o rapper Mano Brown e o escritor Marcelo Rubens Paiva. Lobão parece levantar a bandeira do que os especialistas chamam “nova direita”.

Curioso, porém, é o resultado da enquete do UOL. Até às 11h de hoje (13/5), foram computados 42.944 votos. Quase 63% deles direcionados à resposta “Sim, com certeza, a ditadura militar evitou que o comunismo fosse implantado pelos esquerdistas”; enquanto pouco mais de 31% optaram pelo “Não, a ditadura militar foi uma época cheia de torturas e crimes obscuros”. O restante, quase 6%, não tem opinião formada sobre o assunto.

Fac-símile da home UOL (13/5/2013)

Direita e esquerda foram dados como mortos no Brasil atual, após alianças inusitadas na seara política. No que diz respeito à opinião pública, a dicotomia chama a atenção e não pode ser desconsiderada. Ao que tudo indica vai direcionar em peso o discurso das próximas eleições. Os militares que o digam.

terça-feira, abril 09, 2013

Penny Bailey e o jornalismo científico: “o ideal é sempre contar uma boa história”


Blog do The Guardian acompanhou o Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013 e perguntou aos principais jornalistas do setor como é trabalhar com ciência.

Sala com genomas no Wellcome Collection (Russ London/Wikimedia/Commons)

The Guardian: O que faz uma história sobre ciência ser interessante?

Penny Bailey: “Intensidade”, a história tem que mexer com você. E os sentimentos de intensidade surgem a partir de uma série de abordagens, tais como:
- Os aspectos humanos da história – com a exposição das principais características do (s) personagem (ns) e a sua jornada pessoal –, o lado científico e as pessoas cujas vidas serão afetadas pela ciência.
- Alguns elementos inerentes ao drama – como por exemplo, os obstáculos aparentemente intransponíveis, concorrência, tomada de decisões, problemas e soluções, e cronogramas.
- As surpreendentes artimanhas científicas.
- O ineditismo da história – se a história não é inédita, deve-se abordar o assunto de uma forma diferente, nova.

É preciso entender de ciência para se escrever um bom texto?

O importante é contar uma boa história. É óbvio que se você entende de ciência, ou dos temas relacionados com a área, sua discussão será mais consistente.

Como você começa os seus textos?

Eu costumo escrever todo o artigo primeiro para depois fazer o lead (embora eu já tenha idéia do que eu quero destacar). Porque a abertura é um ponto crítico para atrair o leitor – além disso, minhas melhores idéias raramente são aquelas que penso de imediato –, por isso, sempre utilizo abordagens diferentes antes de selecionar aquela que considero a mais atrativa e relevante para começar a história.

Como você faz para extrair as informações de um entrevistado?

Ter em mente o que eu pretendo escrever e o que devo questionar junto ao entrevistado ajuda bastante – assim como deixar claro as minhas intenções antes de começar a entrevista. É recomendável também sempre ter uma lista de perguntas. Alguns cientistas são naturalmente grandes contadores de histórias e, nesse caso, você tem só que ouvi-los, mas outros – que não deixam de ter boas histórias para contar – necessitam de um pouco mais de conversa e incentivo.

Você trabalha com analogias e metáforas nos seus textos?

Sim, para facilitar o entendimento da história ao explicar conceitos mais complexos.

Quanta informação fica fora dos textos?

Isso depende muito da pauta e do limite de caracteres. Geralmente, deixo de fora coisas que não comprometem o texto e que realmente não acrescentam algo novo a história, mesmo que sejam informações interessantes.

Como equilibrar o texto objetivo com a pegada de um contador de histórias? É possível?

Se estou avaliando uma situação complexa nas quais as respostas não são fáceis (ou que não sejam muito claras), tento manter a objetividade e equilibrar as diferentes opiniões e pontos de vista. Outra possibilidade, é trazer o furo na resposta final. Se tenho o meu ponto de vista da situação, foco nos elementos da história para apoiar essa visão.

Qual é o maior contratempo no ramo de quem escreve sobre ciência?

É muito fácil se envolver com os detalhes técnicos da ciência e desprezar os elementos que dão vida à história.

Penny Bailey é escritor do Wellcome Trust.

Da Série: O Segredo dos grandes jornalistas científicos
Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013
Uma parceria entre o The Guardian e o The Observer

Fonte: The Guardian

domingo, abril 07, 2013

Grandes Cientistas # Bons Matemáticos


E. O. Wilson revela um segredo: Descobertas surgem de idéias, não de números impressionantes

Professor emérito de Harvard, Edward O. Wilson (Jim Harisson/Wikimedia/Commons) 

Para alguns jovens que pensam em se tornar cientistas, a matemática é o grande pesadelo. Sem conhecimento matemático, como é que se pode fazer um trabalho científico de verdade? Bom, eu tenho um segredo profissional para revelar: alguns dos cientistas mais bens sucedidos do mundo atualmente são semi-analfabetos em matemática.

Durante décadas como professor de biologia em Harvard, vi com tristeza estudantes brilhantes desistirem da carreira científica temendo que não pudessem obter sucesso sem grandes habilidades matemáticas. Esse equívoco tem privado a ciência de enorme quantidade de talentos, muitos deles desperdiçados. Isso criou uma hemorragia criativa que precisa ser estancada.

Falo com autoridade sobre o assunto porque eu mesmo sou um caso extremo. Até o primeiro ano na Universidade do Alabama, eu não sabia nada sobre álgebra porque estudei durante anos nas escolas precárias de Southern. Só fui aprender a calcular aos 32 anos, quando me tornei professor de Harvard e depois que sentei, desconfortavelmente, em uma sala de aula com estudantes que tinham pouco mais que a metade da minha idade. Dois deles eram alunos no curso de biologia evolucionista da qual eu era o professor. Tive que engolir o meu orgulho e aprender a calcular.

Quando jovem, fui um estudante que mal se aproximava da nota C, e só consegui me tranqüilizar quando descobri que ter uma grande habilidade em matemática era a mesma coisa que ser fluente em línguas estrangeiras. Em línguas é assim: com um pouco mais de esforço e algumas sessões de conversação com estrangeiros, consegue-se falar bem. Mas tudo isso compromete o laboratório e os campos de pesquisa, e nos faz avançar em uma única direção.

Felizmente, o dom excepcional exigido pela matemática se restringe somente a algumas disciplinas, tais como a física, astrofísica e teoria da informação. Além disso, mais importante do que a ciência como um todo é a habilidade de criar conceitos, momento em que o pesquisador vislumbra intuitivamente imagens e modelos de pesquisa.

Às vezes, todo mundo viaja em idéias como um cientista. Bem organizadas, as fantasias são o fio condutor de todo o pensamento criativo. Newton sonhava, Darwin sonhava, você sonha. Nossos primeiros devaneios são sempre muito vagos. Aos poucos vão tomando forma, e crescem com maior consistência a medida que são esboçados em blocos de papel e que ganham vida como exemplos reais do objetivo da pesquisa.

Os primeiros cientistas raramente fizeram descobertas extraindo idéias da matemática pura. A imagem estereótipo de cientistas estudando linhas e mais linhas de equações no quadro negro servem para exemplificar apenas descobertas já realizadas. As verdadeiras “sacadas” surgem no campo das anotações, no meio do escritório abarrotado de papéis rabiscados, no corredor durante uma discussão com um amigo ou no almoço solitário. Os momentos de Eureca resultam de trabalho pesado. E foco.

Idéias científicas surgem com facilidade quando os envolvidos na pesquisa trabalham em prol do bem comum, em benefício de todos. De forma intuitiva, os pesquisadores organizam suas idéias para melhor extrair um fragmento real sobre tudo que existe. Quando algo novo é encontrado, é necessário aplicar um modelo de avaliação que sempre exige métodos estatísticos ou matemáticos para dar prosseguimento às análises. As dificuldades técnicas que surgem nessa fase são duras para quem realizou a descoberta, por outro lado, a matemática e a estatística podem ser vistas como grandes colaboradores.

Na década de 1970, desenvolvi junto com o teórico matemático George Oster os princípios de casta e de divisão de trabalho em sociedades de insetos. Forneci os detalhes a respeito do que havia sido descoberto na natureza e nos laboratórios, e ele utilizou seu kit de ferramentas, cheio de hipóteses e teorias, para capturar esses fenômenos. Sem as minhas informações, Oster poderia até desenvolver uma teoria geral, mas não teria como deduzir quais as variações seriam possíveis em relação aos fenômenos.

Durante anos, publiquei diversos estudos em co-autoria com estatísticos e matemáticos afim de oferecer mais credibilidade aos princípios adotados. Chamo a isso de o 1° Princípio de Wilson: é bem mais fácil para os cientistas adquirir a colaboração indispensável de estatísticos e matemáticos dos que os mesmos encontrar cientistas capazes de utilizar suas equações.

Esse impasse é um caso específico na biologia, onde fatores da vida real se transformam em fenômenos mal compreendidos ou que passam despercebidos, sem que sejam notados. Os anais teóricos da biologia estão entupidos de modelos matemáticos que podem ser satisfatoriamente ignorados ou, se testados, falhos. É bem provável que somente 10% de tudo isso tenha valor duradouro. Ou seja, salvam-se aqueles ligados diretamente com o conhecimento empregado na vida real.

Se o seu nível de competência matemática é pequeno, planeje aumentá-lo, entretanto, saiba que você pode fazer um trabalho científico marcante com o que você tem em mãos. Mas, pense duas vezes, ao se especializar em campos que trabalham com experimentos de estreita alternância e com análises quantitativas. Isso inclui a maioria dos químicos e físicos, bem como alguns especialistas em biologia molecular.

Newton inventou cálculos como forma de dar vazão a sua imaginação. Darwin não tinha quase habilidade alguma em matemática, mas, com a enorme quantidade de informações que acumulou, pode conceber sistemas que tempos depois seriam utilizados por matemáticos.

Aos aspirantes a cientista, o primeiro passo é encontrar um assunto que seja profundamente interessante e que se tornará seu principal foco. Ao fazê-lo, tenha em mente o 2° Princípio de Wilson: para todo cientista, existe uma disciplina cujo o nível de exigência em matemática não compromete o alcance da excelência.

sábado, abril 06, 2013

Geoff Brumfiel e o jornalismo científico: “Ouça opiniões contrárias”


Blog do The Guardian acompanhou o Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013 e perguntou aos principais jornalistas do setor como é trabalhar com ciência.

Apatosauro, Museu de História Natural de Nova Iorque (Wikimedia)

The Guardian: O que faz uma história sobre ciência ser interessante?

Geoff Brumfiel: Tem muita coisa em ciência que pode se transformar em boas histórias. Podemos escrever sobre uma nova pesquisa, bem como alertar a potencial ameaça presente em uma nova tecnologia. Ou simplesmente fazer com que as pessoas pensem o mundo de uma forma um pouco diferente.

É preciso entender de ciência para se escrever um bom texto?

Meu primeiro editor dizia que era muito mais importante saber escrever do que entender de ciência. Ele tinha razão, no entanto, o conhecimento científico ajuda bastante!

Como você começa os seus textos?

Cuidadosamente. Nas reportagens, em especial, você tem de acertar na primeira linha, se não anula o resto da matéria.

Como você faz para extrair as informações de um entrevistado?

Silêncio. Na tentativa de preencher uma desconfortável lacuna no diálogo, as pessoas acabam contando coisas interessantes.

Você trabalha com analogias e metáforas nos seus textos?

Com moderação, apenas nos momentos necessários.

Quanta informação fica fora dos textos?

Bastante, mas acredito que não sejam as mais importantes.

Como equilibrar o texto objetivo com a pegada de um contador de histórias? É possível?

Objetividade é tudo o que um escritor profissional precisa ter, sendo assim, você tem que encontrar os melhores caminhos nesse sentido. Parece que, com o passar dos anos, isso fica estranhamente mais fácil. Mas se você não quer ter problemas, a coisa mais correta a se fazer é ouvir opiniões contrárias, e respeitá-las. Ou então, apenas citá-las em seus textos.

Qual é a maior inverdade no ramo de quem escreve sobre ciência?

As pessoas pensam que quem escreve sobre ciência promove a ciência ou o pensamento científico. Isso não é verdade, o trabalho de qualquer repórter é informar as pessoas a respeito de tudo o que acontece ao nosso redor.

Geoff Brumfiel é jornalista de ciência da NPR e um dos fundadores da Nature.

Da Série: O Segredo dos grandes jornalistas científicos
Prêmio de Jornalismo Científico Wellcome Trust 2013
Uma parceria entre o The Guardian e o The Observer

Fonte: The Guardian

sábado, março 23, 2013

Homem tenta vender imóvel e receber em Bitcoins


 Autor: Eric Larson

A exemplo de quase tudo hoje em dia, o mercado imobiliário está muito difícil. Mesmo assim, um homem resolveu incluir um viés técnico nessa questão: vender sua casa em moeda digital.

Vista do campus central da Universidade de Alberta (Glenlarson / Wikimedia)

Taylor More, de Alberta, no Canadá, colocou seus bangalôs de dois quartos à venda na internet. Ele está pedindo 405,000 dólares canadenses (cerca de 400,000 dólares americanos) no dinheiro ou, a quem possuir, cerca de 5,750 Bitcoins.

Bitcoin é um sistema de movimentação financeira digital descentralizada, e nos moldes peer-to-peer (P2P, direto, ponto-a-ponto), que vem ganhando aparência nos últimos anos. Trata-se essencialmente de moedas virtuais que podem ser enviadas diretamente pela internet. Ao contrário das transações financeiras oficiais, os Bitcoins não têm uma unidade central; as movimentações são realizadas sem intermediários.

Atualmente, segundo reportagem da CNET, a taxa de câmbio é de 65,05 dólares para cada Bitcoin. Apesar do anúncio, Taylor More diz que não está completamente seguro em receber apenas Bitcoins. No post, ele escreveu:

“Se você tem 450.000 dólares canadenses eu não posso fazer qualquer desconto, mas, dependendo de quantos Bitcoins você tiver para negociar na transação, no total ou parcial, o preço pode cair”.

Fonte: Mashable

domingo, março 17, 2013

Tudo em família


Autor: Claire Vaye Watkins*

Quem primeiro veio para o Vale da Morte foi meu pai, motivado pelo discurso de Charles Manson. Ele sempre fazia o que Charlie pedia, e dizia que isso significava ser uma “Família”. O deserto que meu pai conheceu foi o lugar dos buggies de areia e do Juízo Final, a terra acessível apenas por veículos com tração nas quatro rodas, onde nem mesmo Helter Skelter cruzaria o seu caminho. Ele ficou no Vale da Morte durante os assassinatos do caso Tate-LaBianca e depois fugiu. Foi aqui que um velho garimpeiro chamado Crockett perguntou-lhe, depois da matança, se ele realmente acreditava naquela besteira toda do Charlie. E foi aqui que o meu pai sentiu pela primeira vez a textura aveludada da argila dentro das suas unhas, a liberdade de puxar um pedaço opala ou turquesa da rocha com suas próprias mãos, o cheiro no ar de ervas do campo depois da chuva.

Charles Manson ao ser preso, em 1969 (Wikimedia/Commons)

Acredito que era nisso que ele pensava no dia em que se aproximou de Charlie no Spahn Ranch – depois dos assassinados mas antes do ataque – e perguntou se os acordos seriam cumpridos. Ou a noite, pouco depois de abrir a porta da choupana, meio sonâmbulo, e encontrar Charlie e Tex agachados no meio da escuridão e com facas entre os dentes. O deserto foi a sua salvação, o amor da sua vida. Por 15 anos, até o dia em que eu nasci. O que seria de nós se este lugar não tivesse salvado o meu pai?

Assisti um vídeo dele todo bronzeado na CNN usando uma camisa de abotoar até o pescoço com uma gravata de bolinhas. Vi que ele perdia tempo com um receptor defeituoso enquanto falava sobre os amigos e a “Família”, repetindo sem parar, como estivesse louco. Eles se consideravam anjos divinos, uma onda revolucionária que salvaria o mundo. Em outro vídeo, ele está apoiado em travesseiros e deitado na cama de onde não saiu até morrer de leucemia. Ele olha para dentro da câmera e diz: Aqui estou eu, minhas lindas. Quero que vocês saibam que as amo muito. E também quero que vocês saibam tudo o que eu fui.

Quer dizer que ele pensou que poderia ser questionado um dia? Quando ele morreu, eu tinha seis anos. Não tenho nenhuma lembrança que ele esperava que eu tivesse. Mas tenho CNN e Helter Skelter. Às vezes, eu vejo ele lá. Vejo novamente suas entrevistas, ouço sua voz grossa e trêmula em muitos lugares familiares. Ouço, mas acho que ele não gostaria que eu falasse sobre isso.

Na verdade, o que ele me deixou foi isso aqui: um lugar distante no meio do deserto, na altura da Highway 127, ao sul do Vale da Morte. Vemos isso aqui como turistas, apesar de que somos o oposto; afinal de contas esse é um lugar que nós conhecemos muito bem. Eu e minha irmã estamos com os pés no chão, ela movimenta os braços, eu mexo na terra. Aqui, neste solo perigoso cheio de: cabeças de bode, arbustos espinhosos e plástico. Escorpiões e cascavéis. Sim, é possível encontrá-los por todos os lados. Exatamente como era quando meu pai andava por aqui com a “Família” antes de existir a nossa família.

Certa vez me contaram que nossos cães rodearam uma cascavel enorme perto de casa. Meu pai pegou a cobra e cortou a cabeça dela com uma pá, e fez questão de nos mostrar. Minha irmã estava aprendendo a andar e ficou curiosa, tal como a filha dela é hoje, e pegou a cobra morta nas mãos. Ouvi essa história tantas vezes, tive que jurar que se tratava de uma lembrança. Então, minha irmã pegou a extremidade cortada daquela cascavel, levou à boca e começou a chupar.

*Escritora norte-americana, filha de Paul Watkins, um dos braços direitos da seita de Charles Manson, que não teve participação nos assassinatos e, portanto, não foi condenado. Paul Watkins faleceu em 1990.

sexta-feira, março 15, 2013

As sacadas medievais para a irracionalidade do Pi


Autor: Samuel Arbesman

É o Pi Day (O Dia do Pi foi comemorado ontem). E para homenagear a data decidi fazer uma breve pesquisa histórica. Apesar de o π – a relação entre o perímetro de uma circunferência e seu diâmetro – ter sido bastante apreciado e calculado na Antiguidade, somente no século 18 provou-se que se tratava de um número irracional. Antes, várias aproximações foram realizadas, sendo que as mais exatas giravam em torno do número 3.

Perímetro da circunferência (Wikimedia/Commons)

Esses dias, naveguei pela página “Aproximações para π”, na Wikipedia, e percebi que havia uma nota dizendo que Maimônides – o físico e sábio judeu que viveu há 1000 anos – parecia ter feito uma alusão ao números irracionais em seus escritos. A fonte me levou ao livro “The Ancient Tradition of Geometric Problems”, utilizei o recurso de visualização da Amazon para acessar o conteúdo e assinalei uma suposta declaração ao comentário de Maimônides no Mishná, um conjunto de leis judaicas que integram o Talmude (quem quiser pesquisar melhor, confira os comentários em Eruvin 1:5).

Consegui localizar o trecho abaixo, cujo conteúdo é muito interessante (está em hebraico, e escrito em uma tipologia conhecida como Rashi script). Incluí por conta própria a livre-tradução, razoavelmente fiel, de alguns pontos de destaque:

Reprodução da revista Wired.com

A relação entre o perímetro de um diâmetro e o seu espaço não é conhecida. Não podemos precisá-la... Essa relação realmente não pode ser descoberta, a não ser pela aproximação... E podemos identificá-la na aproximação de um para três ou na sétima parte...”

Maimônides fala da aproximação para o π de 22/7, ou seja 3.14, que é uma boa aproximação. Além disso, ele chegou a deduzir que qualquer valor é necessariamente uma aproximação cuja precisão nunca poderia ser conhecida. Poderia-se dizer que essa evidência é real e que talvez esteja relacionada de alguma forma com a irracionalidade do π, poderia-se dizer também que isso não passa de considerações e que Maimônides simplesmente poderia ter pensando que o π era muito difícil de ser calculado. Além do mais, não há dúvida de que a tradução do hebraico (a partir do original em Árabe) para o inglês é ruim, o que gera maior confusão.

Por fim, essa é uma discussão intrigante e que nos deixa emocionados ao pensar que os sábios da Idade Média talvez já soubessem que o π só permitiria ser relativamente calculado.

Feliz Dia do Pi!

O autor agradece ao rabino Daniel Rockoff pela ajuda na tradução do texto. Quem se interessar pela tradução completa do trecho em hebraico, basta contatá-lo.

Fonte: Wired