sábado, março 28, 2015

Festa de Hienas

Chamo a atenção dos amantes do conhecimento para um questionamento a ser realizado quanto a indicação do filósofo Renato Janine Ribeiro para o Ministério da Educação.
Em primeiro lugar, considero dispensável destacar a qualificação do referido pensador, bem como todas as qualidades que o mesmo possui para assumir a pasta. O problema, na minha humilde opinião, está na "idéia" que foi vendida com relação à nomeação do professor da USP. No âmbito filosófico não temos o que desconfiar de Ribeiro, mas no burocrático temos que formular algumas questões.
A primeira delas é: o Ministério da Educação necessita neste momento - em que a navalha chegou a quase 10 bilhões e as perspectivas são as piores possíveis - de um pensador idôneo, sem experiência com a Res Publica (no sentido prático-político), ou de um nome mais técnico? Digo um nome mais técnico, porque alguém com perfil mais "administrativo" absorveria melhor a guerrilha inquisidora na qual o professor Ribeiro estará sujeito daqui em diante.
Acredito, deste modo, que pensadores do calibre de Renato Janine Ribeiro devem ser chamados para compor e construir um projeto de educação e não para assumir um Ministério completamente esfacelado e que depende de um grande negociador a frente para, no mínimo, manter em dia questões de ordem básica (como pagamentos, obras...).
Portanto, não consigo ver com bons olhos essa indicação e temo, sobretudo, que o nome de Renato Janine Ribeiro seja injustamente esculachado, bem como o da filosofia de uma forma em geral. Até mesmo porque não considero a missão de Ribeiro uma questão que dependa apenas, ou tão somente, da sorte.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Tectônica de placas, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas*

A ação lenta e contínua da Deriva Continental no clima e temperatura da Terra

 “Desde o topo da montanha à praia do mar...
tudo está em estado de mudança”,
James Hutton, em A Teoria da Terra.

Variações de temperatura média nas grandes cidades, em regiões metropolitanas ou mesmo em localidades inóspitas e ainda despovoadas, ganharam um contorno diferente para a opinião pública nos últimos anos. Com base em dados meteorológicos armazenados em registros históricos, aliado ao surgimento de novas tecnologias e de modelos aperfeiçoados de mensuração do tempo1, cientistas e pesquisadores avançaram com sucesso no entendimento dos mais variados fenômenos climáticos, bem como de suas transformações.

Embora delicada2, a discussão em torno das mudanças climáticas deixou a exclusividade dos laboratórios de pesquisa, foi ao noticiário popular3 e adentrou os lares mais comuns desde que o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), ou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, após divulgar seu quarto relatório, em 2007, recebeu o prêmio Nobel da Paz junto com o ex-presidente dos Estados Unidos, Al Gore. A princípio, a conclusão dos estudos reunidos pelo organismo internacional vinculado à ONU foi que a atividade antrópica influenciava de forma direta e inédita nas condições climáticas do planeta e que tal influência poderia resultar em situações catastróficas do ponto de vista ambiental para o futuro.

O alerta gerou polêmica e colocou em evidência o debate que trata a relação entre o Homem e o meio ambiente. O foco, desde então, recaiu sobre a extração, produção e consumo de combustíveis fósseis no século XX e XXI, ou seja, a energia oriunda de fontes não-renováveis, assim como sobre a expansão de atividades de cunho industrial e agropecuário que, de acordo com o pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Carlos Nobre4, contribuem significativamente para a emissão de gases nocivos à atmosfera, tal qual o CO2.

Contudo, a ascensão gradativa de uma agenda internacional pautada na abordagem dos impactos ambientais em escala global fez necessária a melhor compreensão das ocorrências meteorológicas do passado, em específico, das mudanças climáticas naturais ou aquelas que têm origem em causas naturais e que nos são conhecidas principalmente através dos registros geológicos. São indícios muitas vezes relatados desde a Antiguidade5, mas cujo conhecimento científico é bastante recente.

Dentre esses conceitos, deve-se destacar como primordial a ideia contida na formulação da Deriva Continental e que depois foi aprimorada pela teoria da Expansão do Assoalho Oceânico ou a tectônica de placas.

O que é tectônica de placas?

No início do século XX, o meteorologista e geofísico alemão Alfred Lothar Wegener tentou explicar a formação dos continentes, e esclarecer conseqüentemente outras incógnitas em relação à superfície terrestre, propondo a Teoria da Deriva Continental. A hipótese de Wegener era a de que o recorte complementar entre as linhas costeiras de certos continentes indicavam que os mesmos poderiam ter se desprendido no passado e se movimentado como “barcas rochosas”6. Quando unidos, apontou Wegener, tais blocos chegaram a formar um único continente, o Pangeia, que era circundado pelo imenso oceano denominado Pantalassa – e que comportava anexo o Mar de Tétis.

Apesar de sugestiva, a proposta de Wegener foi considerada romântica por alguns cientistas uma vez que não respondia à pergunta: se os continentes flutuam sobre a crosta dos oceanos, qual força é responsável por essa movimentação? Wegener faleceu na Groenlândia, em 1930, durante pesquisas científicas e, mesmo que suas ideias tenham sido refinadas pelo geólogo sul-africano Alex du Tout, em 1937, somente na década de 1960 é que as lacunas sobre a movimentação dos continentes começaram a ser preenchidas.

Segundo os norte-americanos Harry Hess e Robert Dietz, os processos responsáveis pela dinâmica da Terra estavam vinculados basicamente ao movimento das placas litosféricas. A resposta dos cientistas veio dos fundos oceânicos e das rochas coletadas em regiões como as dorsais mesoceânicas (cadeias de montanhas localizadas nas profundezas do mar).

Hess e Dietz demonstraram que os continentes e a crosta oceânica não apenas se movem em conjunto como segmentos íntegros rígidos, mas que nova crosta oceânica se forma periodicamente a partir da consolidação de magma que se forma quando se abrem fissuras na litosfera oceânica, aliviando a pressão e permitindo, assim, a fusão do manto sólido.”
(Toledo et al, 2014)

Isso implica que, à medida que o magma alcança a litosfera oceânica, uma nova camada de materiais é formada – o que provoca elevações no assoalho e o conseqüente surgimento de cadeias ou dorsais nessas áreas. No sentido horizontal, o material acrescido à borda das placas se espalha e se distancia da dorsal mesoceânica indo ao encontro das porções continentais resultando, entre outros, o fenômeno de subducção e a formação das fossas oceânicas. Na engenharia desse mecanismo natural soma-se ainda a influência de fatores como o campo magnético terrestre no espalhamento do assoalho.

Com o suporte de novos equipamentos e metodologias, percebeu-se também que tal expansão – ou o movimento relativo de placas – provoca a ocorrência de limites, falhas e zonas de fratura, tanto nos oceanos quanto nos continentes. São essas divisões que delimitam as porções fragmentadas de camadas litosféricas, usualmente chamadas de placas tectônicas. Ao todo, existem doze placas principais, além de diversas outras menores, que ocupam 94% da superfície terrestre ora em regiões oceânicas ora continentais, ou então, em ambos os casos.

Posto que as mensurações mais avançadas em geofísica indicam o deslocamento desses blocos na ordem de centímetros por ano, vale ressaltar que a força que atua na dinâmica terrestre ainda não se tornou consenso entre a comunidade científica. O embate, porém, não impede a obtenção de dados e resultados cada vez mais consistentes. Atualmente, mesmo com certas divergências, trabalha-se com a teoria da Tectônica Global que entende todo o processo de movimentação da litosfera fundamentado no fluxo de calor interno e na gravidade da Terra mais a interação complexa entre as diversas camadas do planeta (desde o núcleo interno até a exosfera, ou além da atmosfera7).

Meio ambiente e tectônica de placas

A deriva continental incide em mudanças climáticas que aparentemente não são percebidas pelos seres humanos, se levarmos em consideração a ação lenta e morosa das placas litosféricas. No entanto, todo o mecanismo que engendra a tectônica de placas responde em grande parte pela paisagem que experimentamos no dia a dia. Locais como a Cordilheira dos Andes, por exemplo, são efeito do choque ocorrido a uma dezena de milhões de anos entre dois grandes blocos: a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana8.

Ainda hoje a região registra o fenômeno de subducção, provocados pela ação dos limites convergentes, que o ocorre no Pacífico e influencia nos terremotos e vulcanismos que abalam o continente, em especial, o Chile.

A questão é que a tectônica de placas contribui para uma série de eventos que se enquadram entre as situações extremas de tempo e clima. Tais ocorrências são naturais e, dependendo da dimensão do fenômeno, podem causar não só alterações drásticas na temperatura da Terra como também aniquilar boa parte das espécies de seres vivos – como já aconteceu em períodos remotos.

É por isso que pesquisas realizadas a partir do século XX têm demonstrado que o entendimento sobre as mudanças climáticas perpassa também por uma nova concepção sobre o que é um período histórico. Nesse sentido, o estudo de fósseis e de vestígios de toda ordem coletados em diversas partes da Terra vêm possibilitando estabelecer a escala do tempo geológico e reconstruir o padrão de temperatura média global, assim como do nível médio do mar, nos últimos 500 milhões de anos9.

Considerações finais

Dado o curto período de existência humano, que nos permite vivenciar (ou testemunhar) apenas uma fração de tempo muito pequena em relação à constituição da Terra (tempo geológico), o que se apresenta evidente em termos climáticos na atualidade é a mudança em direção ao aquecimento global. Isso ocorre devido não apenas à experiência sensorial em si, mas também ao maior controle na medição dos principais indicativos responsáveis pela variação da temperatura – estações do ano, latitude, altitude, efeito de continentalidade, correntes oceânicas e padrões de circulação atmosférica.

Todavia, ao investigarmos o passado é notório a ocorrência de períodos regulares onde o clima se manteve equilibrado no que diz respeito as suas particularidades em determinada época, tal como vivemos ao longo do holoceno, mas também há registros de mudanças bruscas em que referenciais como a temperatura sofreram alterações extremas10. Em diferentes eras, dinâmicas como a tectônica de placas, associada a outras ocorrências, ganharam uma dimensão desproporcional se comparadas ao que se registra nos dias atuais com a atividade vulcânica, por exemplo. Uma vez expostos a esses eventos altamente impactantes, os seres humanos provavelmente não sobreviveriam.

Na recorrência desse cenário, concomitantemente, as placas litosféricas levariam adiante todo o seu paquidérmico frenesi, cuidando de remodelar completamente a superfície da Terra e de deixar tudo em perfeita harmonia num determinado período de tempo. Ou seja, possivelmente criando outra vez as condições ideais para que se faça sol, chuva ou neve. Tudo isso, sem deixar de lado a adoção imprescindível daquela velocidade tartarugal que vem arrastando a crosta terrestre por algumas centenas de milhões de anos.

Referências bibliográficas:

BURNET, J. O despertar da filosofia grega. Tradução de Mauro Gama. São Paulo: Siciliano, 1994.
RAVEN, J. E.; KIRK, G. S.; SCHOFIELD, M. Os Filósofos Pré-Socráticos. Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 8ª ed., 2013.
TOLEDO, M. C. M; TEIXEIRA, W.; FAIRCHILD, T.; TAIOLI, F. Decifrando a Terra. 2ª. ed. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 2009.
TOLEDO, M. C. M.; TEIXEIRA, W.; BOUROTTE, C. L. M. Geologia. 1ª ed. São Paulo: USP/Univesp/Edusp, 2014.
YNOUE, R. Y.; REBOITA, M. S.; AMBRIZZI, T.; DA SILVA, G. A. M.; BOIASKI, N. T. Meteorologia. 1ª ed. São Paulo: USP/Univesp/Edusp, 2014.

Páginas eletrônicas:

Revista Time. Meat-Eating Vs. Driving: Another Climate Change Error? Autor: Lisa Abend, 27/10/2010. Disponível em: http://www.time.com/time/health/article/0,8599,1975630,00.html. Último acesso: 03/12/2014, 10h40.
Boletim Fapesp. Desafios das mudanças climáticas é tema de pesquisa. Autor: Fabio Reynol, 15/12/2010. Disponível em: http://www.bv.fapesp.br/namidia/noticia/40332/desafios-mudancas-climaticas-tema-pesquisa/. Último acesso: 04/12/2014, 20h15.
Revista Pesquisa Fapesp. Edição 223, 2014. O passado remoto de um grande rio. Autor: Igor Zolnerkevic. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/09/16/o-passado-remoto-de-um-grande-rio/.
Intergovernmental Panel on Climate Change. Climate change 2007: mitigation of climate changes. Working group III, 8.3.2 – Future global trends. Disponível em: http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg3/en/ch8s8-3-2.html.

1Cf. Ynoue et al, o tempo entendido como uma referência ao estado momentâneo da atmosfera, pág. 243.
2A prestigiada revista norte-americana Time publicou, em 27/03/2010, matéria denunciando a polêmica em torno das informações divulgadas pelo 4° relatório do IPCC – quando hackers invadiram o sistema da Universidade de East Anglia e interceptaram uma troca de e-mail comprometedora entre os cientistas. A repercussão desta matéria pode ser vista nas duas retificações providenciadas no texto, de acordo com o site time.com, em 31/03/2010 e 23/06/2010.
3Após o ano 2000, as mudanças climáticas deixaram de ser uma discussão voltada apenas à esfera científica e ganharam as capas de jornais, programas de TV de grande audiência, as salas de aulas e outros espaços públicos.
4Em 2010, Nobre divulgou, segundo boletim da Fapesp, a informação de que cerca de 56% das emissões de dióxido de carbono no Brasil ocorria principalmente por queimadas na região amazônica. Em seguida, estava a atividade agropecuária (24% das emissões) e, depois, os meios de transporte e geração de energia (12%).
5Apesar de o termo meteorologia ser de origem grega e creditado a Aristóteles – que, por volta de 340 a.C., escreveu sobre o tema abordando os seguintes tópicos: nuvens, chuva, neve, vento, granizo, trovão e furacões – pesquisadores como Kirk et al. e Burnet, cada qual com suas interpretações, dão como certa a referência de filósofos como Tales de Mileto (VI a.C.) a questões exclusivamente meteorológicas.
6Cf. Maria Cristina Motta de Toledo et al, Wegener se apoiou também nas semelhanças existentes entre América do Sul e África quanto às feições geomorfológicas, estruturas geológicas em rochas, registros de atividades glaciais, análise de fósseis da flora, entre outros, pág. 85.
7O impacto de um cometa de média ou grande dimensão, por exemplo, na superfície terrestre poderia rearranjar toda a geografia do planeta.
8À bacia Amazônica, que é determinada pela constituição dos Andes, sugere-se a formação em 10,5 milhões de anos, segundo estudos de Victor Sacek (USP).
9Cf. Youne et al, in Meteorologia, pág. 284.
10No parque do Varvito, em Itu (SP), encontram-se formações de rochas sedimentares com sucessão repetitiva de lâminas ou camadas, cada uma delas depositada durante o intervalo de uma estação. São evidências de uma extensa idade glacial há aproximadamente 300 milhões de anos.

* Texto apresentado na disciplina Metereologia, no 2° semestre, da turma de Ciências 2014, da Universidade de São Paulo (USP).

quarta-feira, novembro 26, 2014

Paz, um dever perpétuo e universal*

Felicidade e imperativo categórico no pensamento de Immanuel Kant

Por volta de 1762, o pensador franco-suíço Jean-Jacques Rousseau escreveu aquele que é um dos seus principais trabalhos e que se consagrou um clássico do iluminismo, a obra O Contrato Social. A ideia do “bom selvagem”, já iniciada por Montaigne1, ganha o coração dos mais céticos até então entorpecidos pelo naturalismo newtoniano e pela matematização leibniziana que cobriu a Europa na Era da Razão. Na França, Luís XVI chega ao poder; Cavendish e Priestley avançam nas pesquisas com o hidrogênio no Reino Unido; e, em Konigsberg, na Alemanha, ou melhor, na antiga Prússia, o filósofo Immanuel Kant publica a impactante Crítica da Razão Pura (1781).

Kant viveu o momento empolgante e inédito de promulgação dos direitos civis alinhando-se com a filosofia de Thomas Hobbes no âmbito político2. Defendeu uma ética pautada em regras e, portanto, em preceitos morais – mantendo desconfiança em relação à boa inclinação natural dos homens. Sua reflexão difere da virtude aristotélica como modelo de conduta e abstrai a validade das leis morais a um nível descomunal desenvolvendo uma metafísica específica para se referir à ética.

Tudo na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade de agir segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios, ou: só ele tem uma vontade. Como para derivar as ações das leis é necessária a razão, a vontade não é outra coisa senão razão prática. Se a razão determina infalivelmente a vontade, as ações de um tal ser, que são conhecidas como objetivamente necessárias, são também subjetivamente necessárias, isto é, a vontade é a faculdade de escolher só aquilo que a razão independentemente da inclinação, reconhece como praticamente necessário, quer dizer bom”3.

No conflito das ideias transcendentais, Kant propõe que a causalidade advinda das leis da natureza não é a única via por onde se pode conhecer os fenômenos do mundo, pois, no caso do homem, por exemplo, elemento da natureza e do conhecimento, essa cadeia causal se expressa de outra maneira. Qual seja, através da representação, ou da ética, mas uma ética diferente da tradicional. Porque a ética em si, de acordo com o filósofo alemão, não leva à felicidade. O que pode ser considerado bom para um indivíduo pode não ser ao outro.

Isso porque os fenômenos da natureza são identificáveis através de sua causalidade, mas na natureza humana existe a causalidade pela liberdade que não vai ao encontro de certos determinismos. Em Kant, a razão produz uma maneira de querer específica, que é o querer ético, em outras palavras: a vontade. Porém, uma vontade que tem de ser voltada para o universal, assim como para o bem e o dever, pois é deontológica, e não teleológica como em Aristóteles.

De tal modo, surge a proposta kantiana de tratar o próximo sem caracterizá-lo como um meio, mas como um fim em si. A ideia é superar o homem enquanto tensão com a natureza conduzindo-o além da civilidade à moralidade – na qual a sociabilidade insociável o distancia. Na perspectiva histórica, Kant é filho do iluminismo e, conseqüentemente, depositário da razão. É através dela, acredita o filósofo alemão, que podemos responder às perguntas que dizem respeito a legitimação de nossas ações.

Contudo, há o conflito entre a razão pura e a razão prática, entre os princípios a serem adotados no âmbito das regras particulares ou gerais. Daí nasce a divisão entre as máximas subjetivas e os imperativos universais.

Nesse último caso, a ética esbarra primeiramente nos meandros do desejo, da destreza, técnica, problemática e prudência, ou seja, no campo do imperativo hipotético, para elevar-se até o valor de modo universal e necessário que é o dever ser4 (söllen), a boa vontade, ou o imperativo categórico. De acordo com o filósofo Rawls, “Por imperativo categórico Kant entende um princípio de conduta que se aplica a uma pessoa em virtude de sua natureza de ser racional igual e livre.5

A defesa da autonomia da lei moral, colocando a boa vontade no patamar de máxima universalmente legisladora, rompe com os alicerces da ética tradicional cujo entendimento se fazia através de princípios como a vontade de Deus, a ciência natural e o sentimento moral, ou de conceitos como o de harmonia e perfeição (matemática). Do ponto de vista crítico, a exemplo da análise feita por Bertrand Russell, a boa vontade kantiana como caminho incondicional para se chegar a verdadeira felicidade é uma opinião radical e que pode ser considerada um tanto austera. “Tudo se converte numa série de deveres bastante desagradáveis e enfadonhos, executados não por desejo, mas por princípio. Quem os executa é a boa vontade, a única considerada incondicionalmente boa”6.

Russell identificou no imperativo categórico uma série de conseqüências muitas vezes impertinentes e teceu os mesmos comentários em relação ao panfleto “A Paz Perpétua”, publicado em 1795. Contudo, o filósofo britânico não deixou de ressaltar que as duas ideias fundamentais expostas no panfleto, a de governo representativo e de federação mundial, deveriam ser efetivamente recordadas “nos nossos dias”7, tendo em vista a concordância na sociedade contemporânea de que a busca pela felicidade deve se fazer através de princípios morais.

Bibliografia

Coleção Os Pensadores. Montaigne, Nova Cultural, São Paulo. 1991.
Coleção Os Pensadores. Hobbes, Nova Cultural, São Paulo. 1999.
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. 3ª edição rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução: Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 1995.
RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Tradução: Almiro Pisseta e Lenita M. R. Esteves. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

1Ensaios, capítulo XXXI, Dos Canibais.
2“Tudo, portanto, que advém de um tempo de Guerra, onde cada homem é Inimigo de outro homem...”. O Leviatã, Parte I, capítulo XIII.
3Fundamentação da Metafísica dos Costumes, p. 47.
4“É o dever mesmo que é o bem, não tendo outra justificativa senão ele mesmo”. Dicionário Básico de Filosofia, pág. 69.
5Cf. John Rawls, em Uma Teoria da Justiça, pág. 277.
6Cf. Russell, em História do Pensamento Ocidental, pág. 349.
7Idem, pág. 350.

* Texto apresentado na disciplina Ética e Cidadania II, no 2° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

terça-feira, novembro 25, 2014

Univocidade e Ser Infinito no pensamento de Duns Escoto*

 “Todo conhecimento começa pelo ser,
que é a primeira noção concebida pelo nosso intelecto
para que concebamos alguma coisa determinada, ou não.1
Mário Ferreira dos Santos, em Filosofia Concreta.

Condecorado com o título de Doutor Sutil e, mais tarde, Doutor Mariano, o escocês João Duns Escoto viveu entre o final do século XIII e início do século XIV. Está vinculado ao pensamento escolástico, mas é reconhecido por comentadores e especialistas em Filosofia Medieval2 como um pensador inovador e original. A possibilidade de se conhecer os seres imateriais, e conseqüentemente Deus, é a grande discussão de sua obra metafísica. Nela, Escoto busca resposta à questão: será possível ao ser humano com a sua finitude conhecer a grandeza do Ser Infinito, que é Deus? De acordo com o escocês, o entendimento a respeito do ser em si e da natureza da abstração são fundamentais para se chegar a solução da referida problemática.

Para Escoto em primeiro lugar, pontua Costa Freitas, está o ser, mas o ser na sua concepção pura, independente de qualquer distinção categorial ou modal3. O que significa entender o ser não como efeito ou resultado, como algo pronto, interpretado a partir daquilo que já é, mas o ser em estado anterior ao dado, livre de classificações e caracterizações (categorias) ou de particularidades e determinações (modos).

Ademais, se se questiona a respeito do conhecimento do ser ou daquilo que é verdadeiro, responde-se que o intelecto, em virtude do que lhe compete de puramente natural, pode conhecer o verdadeiro tomado neste sentido”4. Ou seja, Escoto sinaliza para a existência de um ser que é objeto primeiro da inteligência e que, segundo Costa Freitas: “Equivale, por isso, a entidade pura e diz-se de tudo o que é inteligível em si mesmo. Absolutamente indiferente à natureza das coisas, constitui, por isso mesmo, uma verdadeira noção transcendental.5

Vale lembrar que o referido período histórico é marcado pela transição do neoplatonismo dos clérigos que se lançavam a filosofia para o aristotelismo cujo triunfo é registrado no século XIII (Russell, 2001)6. Portanto, Escoto está renunciando à interpretação do ser a partir do viés dos universais e particulares, a ideia do Uno que descente; e renuncia também ao ser unitário que tem na revelação a fonte de conhecimento (fé e razão). A ruptura do pensador escocês com a filosofia tradicional é evidente, por exemplo, na ideia de que o conhecimento de Deus não se resume à experiência sensorial tomista, tampouco ao conceito agostiniano de iluminação divina.

Acontece que entre Deus e a inteligência humana temos o ser enquanto ser (ens inquantum ens), que está sujeito à intencionalidade de tal inteligência ou, em outras palavras, à vontade.

Da mesma maneira que o poder supremo reside na vontade de Deus, na alma humana Duns sustenta que é a vontade que governa o intelecto. O poder da vontade dá liberdade aos homens, enquanto o intelecto é restringido pelo objeto ao qual se aplica. Disto se depreende que a vontade só pode captar o que é finito, pois a existência do ser infinito é necessária e portanto anula a liberdade”. (Russell, 2001)7.

Por isso, é no ser finito, que tudo apreende no sentido de construir e dar vida à realidade existente, que é possível que o mundo seja inteligível e, portanto, é através dele – transcendentalmente – que chega-se à abstração do Ser Infinito. Não por compreensão, mas por vontade.

É o ser primeiro que dá condições à experiência, à realidade, Deus e tudo mais que existe, de tal modo que o entendimento sobre o ser nos conduz à univocidade, qual seja, a certeza de que trabalhamos com uma verdade irrefutável, coerência argumentativa, unidade lógica ou prova apodítica: a irredutível realidade do indivíduo.

O sujeito de Duns Escoto é transcendental e unívoco, entendido como aquilo que “possui um único significado, que se aplica da mesma maneira a tudo que se refere. Correspondência entre dois elementos que se dá de uma única maneira”8. O que implica não existir contradição entre aquilo que é (o ser, Deus e as criaturas), de tal maneira que trata-se de um só e mesmo conceito.

Conclui-se, assim, que à resposta a pergunta inicial (será possível ao ser humano com a sua finitude conhecer a grandeza do Ser Infinito, que é Deus?) Escoto argumenta que “Deus não é conhecido naturalmente pelo homem nesta vida, de maneia particular e própria, isto é, não é conhecido em sua essência como tal essência e em si mesma”9. Em seguida, lança o conceito de univocidade, conquanto afirma que o ser finito é condição necessária, do ponto de vista transcendental, para a realidade divina, independente de compreendê-la ou não. “O que se conhece de Deus é conhecido através de representações inteligíveis das criaturas.10

É o que Costa Freitas vai identificar como a filosofia do Amor em Escoto, uma vez que a concepção de unívoco propõe a afirmação ontológica de que tudo aquilo que é está automaticamente oposto ao nada. Nas palavras de Dos Santos: “O contrário da entidade é o nada absoluto”11.

Bibliografia

Coleção Os Pensadores. Sto. Tomás, Dante, Scot, Ockham. Vol. VIII, Abril Cultural, São Paulo. 1973.
DE LIBERA, ALAIN. A Filosofia Medieval. Tradução: Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
FREITAS, MANUEL BARBOSA DA COSTA. O ser e os seres infinitos. Itinerários Filosóficos. Lisboa: Editorial Verbo, 2001.
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. 3ª edição rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
RUSSELL, B. História do Pensamento Ocidental. Tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
DOS SANTOS, MÁRIO FERREIRA. Filosofia Concreta. Introdução e notas: Luís Mauro Sá Martino. São Paulo: É Realizações, 2009.

1Mário Ferreira dos Santos. Filosofia Concreta, pág. 613.
2Cf. Alain de Libera destaca em A Filosofia Medieval, pág. 62, apesar de alertar para a influência da filosofia avicenista no conceito metafísico de ser em Duns Escoto.
3Manuel Barbosa da Costa Freitas. O ser e os Seres. Itinerários Filosóficos, pág. 5 e 6.
4João Duns Scot, Os Pensadores, pág. 240.
5Idem.
6Bertrand Russell. A História do Pensamento Ocidental, pág. 225.
7Idem. Pág. 225, 226.
8Hilton Japiassú & Danilo Marcondes. Dicionário Básico de Filosofia, pág. 266.
9Idem cit. 4. pág. 268.
10Idem, pág. 269.
11Idem cit. 1.

* Texto apresentado na disciplina História da Filosofia Medieval, no 2° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

quinta-feira, outubro 30, 2014

Dois pesos, duas medidas*

O bem supremo aristotélico como finalidade do Estado frente ao cidadão

            Na metade do século IV a. C., os primeiros vestígios de declínio da aclamada democracia ateniense[1], o sofismo predominante e a expansão alexandrina alcançando bárbaros, exigiram do filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) a tarefa de pensar a questão grego-política por meio do viés analítico – tão caro ao seu projeto de investigação filosófica. A pergunta a ser respondida era: “Qual o melhor sistema de governo?”.

Ainda que o Estagirita mantivesse a busca pelo bem supremo como fim maior da organização social, seu raciocínio tomou rumo oposto ao dos pré-Socráticos e ao de Platão – esse, sim, um genuíno cidadão grego –, ao elaborar um conceito de justiça que extrapolou a tradição helênica e o ideário constituído na República. Para os contemporâneos e sucessores de Tales de Mileto, os deuses; para Platão, começar do zero expulsando poetas e coletivizando mulheres e crianças; para Aristóteles, é preciso fazer “ciência” e enxergar a política de forma mais completa.

Segundo o filósofo, o exame da matéria política deve deixar o plano da generalização, da ideia de que os seres humanos (cidadãos) são todos iguais, e tem de passar pelo princípio de análise em virtude de sua natureza diversa tal qual os demais objetos do conhecimento.

“Acostumamo-nos a analisar outras coisas compostas até que não possam mais ser subdivididas; façamos o mesmo com o Estado e com as partes que o compõe; e entenderemos melhor as diferenças entre um e outras, e se podemos deduzir algum princípio de funcionamento das diversas partes”. (Política, I, 1, 3)

Esse princípio de funcionamento é o que define o arquiteto enquanto construtor de casas, o marceneiro enquanto fabricante de cadeiras, o médico enquanto especialista em saúde. Todo cidadão, de acordo com Aristóteles, antes do caráter político, tem sua predisposição natural a determinadas habilidades[2]. Conciliar essas características (diferenças) com a inclinação para o convívio social, mantendo o equilíbrio e a harmonia necessárias, é o norte que a política deve seguir. A garantia do bem comum ao cidadão é a garantia do bem comum ao Estado, ou seja, a virtude.

Reta Justa

Aristóteles entende que só é bom (justo) aquilo que faz bem a todos. Por isso, os extremos devem ser evitados e a medida certa (meio-termo) empreendida. Aqui notamos aquilo que Reale[3] vai classificar como uma crítica ao comunismo platônico, uma vez que o Estagirita sinaliza que um governo do povo privilegiaria somente uma camada social. Sendo assim, na Política, três são as formas de governo ideais: a monarquia, a aristocracia e a politeia. 

“Antes de mais nada, é preciso dizer que as três formas de governo, quando exercidas com retidão, são naturais e portanto boas, porque o bem do Estado consiste em visar o bem comum”.
(Introdução à Aristóteles, cap. VI, pág. 133).

E três, são as formas ilegítimas: a tirania, a oligarquia e a democracia (vista como privilégio de apenas uma classe). Porque essas últimas estão fora de ordem, são desmedidas. Profundo conhecedor de outras cidades e regiões, Aristóteles entendia que apenas em Atenas seria possível a realização da pólis ideal devido ao caráter e à cultura do cidadão grego que automaticamente o eximia de viver sob a tutela de um governo ilegítimo.

Por outro lado, ao decompor o Estado até a família e, depois, até o indivíduo, Aristóteles mostra, conforme aponta Russell, que mesmo no nível mais primitivo de organização existe uma noção de ordem. “Ordem é, antes de tudo, ordem social”[4].

Olhar teleológico

Portanto, é imprescindível compreender que Aristóteles visa fazer conhecimento a partir da ideia de que tudo é composto dentro de uma lógica e constituído de uma determinada finalidade, ou objetivo. Foi assim com a ética, biologia, metafísica e outros temas. Ou seja, a política também guarda as características intrínsecas à sua natureza e tais elementos se compõe buscando um fim ético.

No caso dos cidadãos, enquanto seres que naturalmente tendem ao convívio social[5] e não à exclusão e retidão extrema, esse fim não poderia ser algo que causasse prejuízo, dor e sofrimento, ou tampouco a extinção dos próprios indivíduos.   

Isso significa que a boa sociedade caminha em direção ao seu único objetivo: a felicidade. O Estado ideal, portanto, seria o Estado feliz. Enquanto garantia de manter guardadas as devidas proporções.

Bibliografia

Coleção Os Pensadores. Aristóteles, Nova Cultural, São Paulo. 1999. Política, I, 1; II, 4. Metafísica, I, 1. Ética a Nicômaco, I e II.
JAEGER, W. (1936) Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. 3ª edição rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
RAVEN, J. E.; KIRK, G. S.; SCHOFIELD, M. Os Filósofos Pré-Socráticos. Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 8ª ed., 2013.
REALE, GIOVANNI. Introdução à Aristóteles. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
RUSSELL, B. História do Pensamento Ocidental. Tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.



[1]   Cf. o historiador alemão Werner Jaeger tão bem ilustra no Livro Quarto da sua obra Paideia, a formação do homem grego.
[2]   Aqui encontra-se uma das discussões polêmicas em relação à filosofia aristotélica em razão do conceito de cidadão  que exclui a figura da mulher na sociedade e que contempla a existência de escravos, bem como de pessoas incapazes de se civilizar (bárbaros e estrangeiros).
[3]   Reale, Giovanni, Introdução à Aristóteles, pág 130,136.
[4]   Russel, Bertrand, História do Pensamento Ocidental, pág. 18. 3ª ed.
[5]   ζῷον πoλίτικoν (Zóon Politikon): conceito de animal político, ser social, exposto no livro Política. Assim como o homem tende (finalidade) à sociedade, tende ao saber, como exposto na Metafísica, e por isso à virtude.

* Texto apresentado na disciplina Ética e Cidadania II, no 2° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

quarta-feira, outubro 29, 2014

A verdade mata*

Em "Giordano Bruno", diretor italiano mostra os últimos passos do filósofo renascentista

Religião, política, sexo e ciência. Esses são os principais ingredientes que compõem a elegante e fluvial Veneza, na Itália, na transição do século XVI para o XVII, quando as chamas das fogueiras da Inquisição começavam a se apagar. Epicentro cultural, artístico, comercial, naval e político-religioso, a cidade foi literalmente o destino – final – do frade, filósofo, escritor e astrônomo, Giordano Bruno, cuja vida foi retratada de maneira preciosa na produção de Giuliano Montaldo, de 1973.

Dono de uma sabedoria única, Giordano Bruno construiu uma história que por si só tornou-se sinônimo de spoiler1 uma vez que o seu trágico desfecho (na fogueira em Roma) é de conhecimento geral. No entanto, são os motivos que o levaram à condenação que servem de costura para a trama engenhosa montada pelo diretor italiano.

O filósofo foi bastante polêmico. Considerava que o mundo era um organismo vivo, harmônico, infinito e constituído de outros mundos completamente desconhecidos do ser humano. Criticou o geocentrismo aristotélico e defendeu o heliocentrismo demonstrando com fatos matemáticos que a Terra e os demais astros do sistema solar giravam em torno do Sol. Acreditava na metempsicose, ou seja na transmigração das almas, numa clara influência do pitagorismo. Entendia que todo filósofo é dono do próprio destino e que todas as pessoas têm a capacidade e o direito de filosofar. “Não existe diferença entre o Papa e um artesão, todos os homens são iguais”, escreveu Bruno.

Após percorrer as principais nações européias, o filósofo foi à Veneza e se hospedou na casa de um nobre local interessado em conhecimentos de magia. Nessa época, Giordano Bruno já era muito respeitado como cientista, porém visto como mago. Há também quem enxergasse nele a verdadeira encarnação do diabo, apesar de que – sem levar em consideração o nobre que o acolheu e os condenados pela Inquisição – ninguém ousou denunciá-lo.

Ainda em Veneza, Bruno foi julgado e obrigado a abjurar de suas ideias e filosofia, o que não passou de uma estratégia para continuar livre e pensante. Embora revolucionária, sua nova visão do cosmo e do Homem fez com que obtivesse o apoio de membros do clero que sinalizaram favorável a sua liberdade desde que as ofensas à Igreja fossem retiradas de suas obras. Bruno recuou, não abriu mão de seus princípios e acabou enviado à Roma – que se adiantava de todas as maneiras para tentar queimá-lo.

Ateísmo, blasfêmia, conspiração, heresia, traição, foram algumas das justificativas utilizadas para enviá-lo à fogueira. Isso sem falar na atuação política do filósofo que o diretor Montaldo expôs de forma brilhante. Durante o diálogo com os religiosos que o condenavam, Bruno refutou a crítica de um clérigo aos sistemas políticos de Estados como a França, Inglaterra e Alemanha, alegando que fora justamente os cristãos que ensinaram aos “novos” políticos como administrar as finanças e controlar o povo a partir da religião. “Por isso, esses Estados se dizem laicos e permitem todas as religiões”.

Antes de ser levado ao espetáculo de Campo de Fiori, Giordano Bruno ainda lançou dúvidas em relação à Santíssima Trindade agostiniana, na qual alegava ser incompreensível, denunciou as mazelas sanguinárias da Igreja associando tais atitudes com superstição, ignorância e violência, e não deixou de fixar suas concepções sobre a matéria, a forma, o universo e o todo.

O filme também aborda um aspecto importante na personalidade de Bruno, que é o seu caráter orgulhoso. O diretor deixa bem claro em diversas passagens que o filósofo poderia ter sido mais brando em comportamento, mas o espírito de liberdade o impedia de resignar-se. Sendo assim, não restou-lhe outro caminho se não o do “microondas” no fatídico 8 de fevereiro de 1600 e a conseqüente proibição de seus livros – o que não impediu toda a reforma que ocorreu na política e na ciência nos anos seguintes.

Por fim, vale destacar a trilha sonora da película composta com maestria pelo genial Ennio Morricone que uniu a pegada western macarrônica com o ponto fúnebre dos cantos celestiais. É assim que a verdade continua sendo dita. Ora pro nobis.


1Spoiler é um palavra de origem inglesa que significa basicamente “estraga-prazeres”, no que diz respeito à pessoa que revela intencionalmente o final de uma história inédita. Em português pode ser relacionada com o termo Espoliação ou com o verbo Esbulhar, conforme o dicionário Uol Michaelis. Fonte: http://www.tecmundo.com.br/youtube/2459-o-que-e-spoiler-.htm e http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=esbulhar, último acesso 25/05/2014.

* Texto apresentado na disciplina Oficina de Leitura e Produção de Texto Acadêmico, no 1° semestre, da turma de Filosofia 2014, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.  

quinta-feira, setembro 05, 2013

O segredo dos grandes compositores britânicos

Músico e compositor, Daniel Rachel escreveu em parceria com a jornalista Caroline Sullivan o livro “Isle of Noises”, que reúne entrevistas com diversos músicos britânicos famosos. O foco das conversas está no processo criativo utilizado naquelas que podem ser consideradas as maiores pérolas da música pop mundial. Com a palavra nomes como Ray Davies (The Kinks), Jonny Marr (The Smiths), Lily Allen e outros. Selecionei trechos, a partir de material publicado no The Guardian de hoje, com o depoimento das seguintes figuras:

John Lydon, Sex Pistols

(Show com a banda PIL, em 1986 / Ives Lorson - Wikimedia)

DR: Você carrega um caderno para anotar frases ou ideias?

JL: Não. Eu nunca faria isso. Urrgh, não sou um integrante do The Clash. Eu me lembro que o Joe Strummer costumava assistir o The News at Six* e anotar os slogans e frases que seriam utilizadas nas canções. Ele não perdia tempo e escrevia coisas como “sten guns in Knightsbridge**” e “White Riot”. Além de ser totalmente fabricado, considero isso ridículo!

Mick Jones, The Clash

Show no Carbon Casino, em 2008. (Pmsphoto - Wikimedia)

DR: Como é que você e Joe Strummer uniam suas ideias para então levá-las ao resto da banda?

MJ: Às vezes eu andava com um gravadorzinho de fita cassete. “Complete Control”, por exemplo, foi feita assim. Em “London Calling” fechamos a letra, mas acabei dando uma suavizada na música que antes tinha uma batida mais robusta... Acho que essas canções vinham quase prontas... Somente mais tarde é que nós partimos para uma pegada mais experimental. Mas, depois, tivemos que cortar esse lado também. A exemplo das duas ideias para “Casbah”***. Bernie [Rhodes]**** disse: “Porque tudo que vocês fazem tem que ser raga?”. Você sabe, aquela música longa... no mesmo ritmo de sempre. Nesse dia, enquanto o aiatolá dizia que não gostava de rock'n'roll, Bernie nos pedia para encurtar tudo. Então o Topper entrou no estúdio, foi incrível. Ele pegou três coisas: o baixo, o piano e a bateria. Eu fiz o refrão “Shareef don't like it”, enquanto o Joe fez a letra. No entanto, Topper foi o grande maestro.

Annie Lennox, Eurythmics

Fac-símile capa do disco Revenge (Reprodução - Wikimedia)

DR: Você continua tomando conta de tudo nas composições como na época da parceria com Dave Stewart?

AL: Eu nunca pensei dessa maneira, acontece que eu escrevia as letras e o Dave trabalhava como um tutor/mentor nesse departamento (composição). Às vezes, eu escrevia 90% de uma canção... como em “Sisters Are Doin' It for Themselves” ou “There Must Be an Angel (Playing With My Heart)”, onde o Dave contribuiu com ótimas sacadas musicais em termos de forma e estrutura. Ele também ajudou bastante em ideias que começaram do zero, como “Sweet Dreams” e “Here Comes the Rain Again”. Em razão de ser aficionado por tecnologia de ponta, Dave era definitivamente o responsável pela parte técnica do processo de gravação. Nesse sentido, ele pode até ser considerado o “produtor”, embora eu também atuasse de forma mais orgânica na produção. Nós sempre dividimos tudo meio a meio, e é assim que enxergamos a nossa parceria.

* Noticiário da BBC de Londres, talvez comparado ao Cidade Alerta.
** Verso da canção 1977, do disco The Clash. Knightsbridge é um bairro de Londres, em livre tradução a frase seria algo como “as pistolas alemãs em Knightsbridge”.
*** Rock The Casbah, canção do disco Combat Rock.
**** Produtor e empresário da banda The Clash.